Olhar para cima

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Quantas Diamantinas serão necessárias para o olhar voltar-se para cima?

 – Larissa Liz e Luiz Fernando Platt – 

Diamantina, do grego, um ser indomável e indestrutível; duro como diamante. No Brasil, de acordo com o Censo Demográfico de 2010, existem 1.385 mulheres chamadas ‘Diamantina’. Em Santa Catarina, 120. Entre elas, está Diamantina Costa Firmiano. Para muitos, pode ser encarada como uma pedra bruta, entretanto, para a comunidade José Boiteux, no Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis, ela é de uma preciosidade única e que quanto mais se lapida, mais valor adquire. Nascida em 12 de abril de 1908, casada aos 15 anos, mãe de oito filhos, avó de 31 netos, bisavó de aproximadamente 64 bisnetos e com cerca de 18 tataranetos.

De pele negra na qual as rugas demonstram os anos vividos. A mão áspera, de uma vida árdua, vai ao rosto querendo esconder os olhos marejados e profundos de lágrimas que insistem em cair. “Só Deus sabe o porquê de eu chorar tanto”. Num movimento continuo de contração ao chorar, expansão ao rir, a senhora dos olhos levemente puxados, pela idade ou por miscigenação de heranças, e do sorriso de um dente restante, tenta, com dificuldade, recordar do que não volta mais. O chão verde, os pés descalços e o mar sem fim.

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Nascida no Morro da Cruz, a infância é criança na memória. Aos 107 anos, ainda lembra-se das farras e das broncas recebidas na mocidade. Quando nova, antes de se casar, saía para lavar roupa e fugia para ir namorar. Comenta de seus namorados, no plural, com riso no rosto. “Gostava de dançar, mas a mãe não deixava. Se descobria era puxão de orelha”. Já o pai, não se incomodava, “era bom”. Gostou muito de um moço que trabalhava com peixe, porém não teve futuro. A mãe a fez casar com outro, de sua escolha, tinha gosto por homem de farda. O ex-combatente Lydio Antônio Firmiano, falecido em 1980, teve seu início como faxineiro das barcas. Serviu à Marinha Brasileira à bordo do navio ‘Itapoan’, durante a Segunda Guerra Mundial, como carvoeiro. Nascido em 1904, se estivesse vivo, estaria completando 112 anos este ano.

Dona Diamantina casou-se aos 15 anos, ainda novinha. Menciona seu falecido com muito apreço; é grata pela vida ao seu lado. Enaltece seu Firmiano como um homem bom e o motivo de seus sorrisos sinceros até hoje. “O que me fez feliz? Eu casei, meu marido não me espancava, o que pegava era para mim. Só que ele era muito ‘ruento’, saia muito.”

Repetidamente como um disco arranhado na vitrola, ela exalta: “A vida não foi fácil, meus filhos. A pobreza foi grande.” Mas ela sabe, todos ali sabem, Dona Diamantina não seria quem é se tivesse saído dali. Talvez ela nem chegasse até ali. Na verdade, ela saiu. E voltou. Porque suas raízes são do maciço.

Perdida na mente que luta para não recordar, está a marca da época em que se mudou para o Saco dos Limões. O marido passou a dedicar-se à pesca. A falta novamente era muita. Moravam na coxia de cavalo, logo abaixo de onde o animal comia. Nem mesmo o sono era permitido. Caíam farelos sobre eles, exigindo que seus corpos encolhessem a cada migalha. Essa é a parte da história de incertezas para Dona Diamantina, mas revela com muita dor. “Passei muito trabalho, sofri muito, mas não deixei meu marido até a hora que ele foi embora”.

Quantas dores e incertezas serão necessárias para o olhar voltar-se para cima?

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O período foi curto. Não soube ao certo explicar como, ou quando, mas a rua José Boiteux retornou. A centenária foi uma das primeiras moradoras da comunidade. Hoje, relembra do mato que existia antes dos 365 degraus construídos. O trajeto era feito por trilha. Como quem não devesse ter seu lar, Diamantina e seus filhos disputavam o espaço com os soldados do exército. O local servia de treinamento de tiros. Avisados por uma bandeira, corriam para não serem atingidos por balas, ficavam escondidos. Além do temor pelos tiros, surpreende confessando que a maior fobia da sua vida é de avião. “Tinha muito medo de avião. Quando via um no céu corria, porque não sabia o que era. Achava que ia cair alguma coisa em cima da gente”. Cita, aos risos, a persistência desse amedrontamento até hoje. Como mãe, temia que seus filhos saíssem de perto e se envolvessem com bandidagem. Avisavam na hora da saída e quando voltariam. Tinham horários e os cumpriam.

As pernas que subiam e desciam o morro carregando o peso do corpo mais das roupas lavadas a mão no rio, atualmente, teimam em querer repousar, como quem clama por descanso. E como Dona Diamantina subiu. O trabalho não tivera sido diferente em se tratando de uma mulher pobre em tempos de ricos. Para ajudar o marido a sustentar os filhos, lavava, passava e engomava. “A gente lavava muito e ganhava pouco. Meus filhos andavam descalços. Não tinha conga, kichute, nada disso, recebiam muitas roupas usadas, doações. Não tinham mochila; levavam o material em saquinhos”. Enfatiza que, mesmo com tantos contratempos, os estudos dos filhos era sua prioridade. Assim como ela, estudaram até o quarto ano; sabiam ler e escrever. “Não tinha faculdade. Agora é tanto médico, tanto engenheiro, não faz nada”.

Quantos médicos e engenheiros serão necessários para o olhar voltar-se para cima?

O pensamento permite a Dona Diamantina viajar no tempo e, com nostalgia, narrar, como quem escreve um livro histórico, sobre a antiga Florianópolis. “Não tinham casas. Não tinha ônibus, mas tinha o bonde. Não tinham hospitais. Onde agora tem a Beira-Mar (avenida), o mar vinha e levava tudo. Era praia grande, íamos pegar ostra, berbigão, pescar”. Expressa com comoção ter existido um cemitério onde agora é o Hospital de Caridade. O local era seu refúgio quando queria desligar-se do tempo. “Quantas pessoas enterramos ali? Não tinham túmulos; ficávamos lá orando”. Nessa ambiguidade entre ter e não ter, Dona Diamantina descreve o sentimento de querer poder voltar àquela velha capital. “Mudou tudo; mudou até as pessoas; até os filhos mudaram. Não é nada mais como era antes”. Talvez esse seja o principal motivo para, em suas palavras, “não ver a hora de ir”.

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Os símbolos de maiores carências para àquela família são hoje as memórias mais ricas. A comida era simples. Quando não tinham o que comer, restava a farinha peneirada, o sabugo de milho e o feijão. Em dias de frio, o peixe era o prato principal. Sempre assado no ‘brasão’ (churrasqueira de chão feita de ferro), servindo, também, para esquentar a casa sem assoalho e com teto coberto com palha de coqueiro. A emoção maior, para a centenária, fica por conta da água do poço: “A gente pegava água no poço para beber e ninguém morria. Hoje ninguém quer tomar água do poço.” Tudo isso acompanhado da louça de barro, mais barata na época.

Essa simplicidade faz com que Dona Diamantina tenha sido e ainda seja lembrada por muitos. Além de lavadeira, nos tempos de ditadura foi faxineira na Secretaria de Segurança. Fazia cafezinho. Trabalhara diretamente com Doutor Jades Magalhães, ex-secretário de Segurança Pública, a quem hoje recorda como ‘um homem bom’. Na verdade, o espírito de matriarca possibilita a ela não ver maldade nos outros e considerar ‘todo mundo bom’. “Um dia fizeram uma roda de secretários e me colocaram no meio perguntando qual deles eu gostava mais, não iria falar né? Não posso reclamar de ninguém, mas o Doutor Jades me ajudou muito e ainda me ajuda”. Uma mulher, que durante a vida serviu aos outros, vê em atitudes mínimas retribuições enormes. Alegra-se com ações singelas. Como pensionista mais velha da Marinha, recebe visitas dos representantes. Como ela própria ressalta, usa o que lhes dão e recentemente ganhou donativos das ‘Voluntárias Cisne Branco’. Os quais ela faz questão de exclamar em inúmeros momentos. “Bonito esse cobertor de coração né? Ganhei mais dois iguais. São pessoas boas!”.

Uma mulher de coração gigante e mesmo com tantas amarguras, tem no carinho ao próximo seu bem mais precioso. “Minha educação é a mesma, tratar todo mundo bem, gostar de todo mundo, sempre fui assim, nunca tive raiva de ninguém, nunca fiz mal a ninguém. Se a pessoa for boa, eu vou amá-la, como eu amei meu marido, como eu amo meus filhos.” Talvez por essa modéstia e humildade, quando questionada se passou preconceito é enfática: “o que é isso?”. Entretanto frisa a todo instante, com muita seriedade, sempre ter sido prestativa aos patrões, aos comandantes, como se refere. “A gente era bom, cozinhávamos, trabalhávamos, cuidava dos pequenos que as mães deixavam quando iam aos serviços”. Deixa claro sua obediência às ordens e não guardar desgosto de ninguém.

Quantas crianças serão cuidadas para o olhar voltar-se para cima?

Essa ternura pode ser vista pelo olhar de Dona Diamantina ao ver seus familiares. Como para toda mãe, seja do morro ou do asfalto, seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos, serão para sempre crianças. Menciona, com dificuldade de controlar as lágrimas, de um neto, em especial, amamentado por ela. “Eu olho para o meu neto e choro. Ele era pequeninho. Quatro meses eu peguei ele e agora eu vejo ele um homem. Ele me diz que já é um homem e eu quero fazer ele de criança. Mas se eu gosto de alguém, eu tomo cuidado, quero o bem deles.” Na verdade, Dona Diamantina só gostaria de ver todos agarrados em sua saia.

Com seus 107 anos, a senhora que vivenciou o mato virar cimento; o mar virar avenida; o cemitério virar hospital; hoje tenta vislumbrar o mundo crescendo através da janela do seu quarto. A idade fez com que tenha dificuldades de se locomover e passe a maior parte dos seus dias na cama de casal, com sua coberta de corações e seu inseparável lenço rosa, para enxugar os olhos que insistem em lacrimejar. O dia mais triste, para ela, foi em uma de suas idas à cidade para fazer compras na feira. Ao fim, foi almoçar com sua neta e quando se levantou sentiu fortes dores nas pernas. Desde então não pode voltar à feira e andar como antes. “Quero levantar, mas todos têm medo de eu levantar. Vontade de andar um bocadinho”.

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Um dos maiores obstáculos na José Boiteux é acessibilidade (veja reportagem sobre o assunto). A descida do morro para ir ao médico torna-se uma tarefa difícil para moradores da comunidade com dificuldades de locomoção. O projeto de revitalização do morro não deixa claro se algo será feito a respeito. Os funiculares surgiram como uma alternativa, contudo já foram tirados do papel. Enquanto isso, resta à Dona Diamantina uma única solução: “Quando tenho que ir para o hospital tem que ser na cadeira. Os homens seguram um em cada lado e descem”.

Quantos homens serão necessários para o olhar voltar-se para cima?

Esse obstáculo é um motivo a mais para que a senhora expresse sua falta de vontade para ir aos médicos. Embora claramente não goste, exprime não ter críticas sobre sua última ida ao Hospital de Caridade. Segundo ela, os médicos e enfermeiros eram muito bons. “Eu só reclamei do mingau. Tinha muita vontade de comer. O doutor perguntou: ‘o que a senhora quer? ’ e eu: ‘vontade de comer um pedaço de linguiça frita com pirão’, mas não podia”. Apesar de contente com o atendimento, Dona Diamantina é nostálgica ao rememorar que, em seu tempo, os médicos não cobravam para atendê-la e não tinham enfermeiras cursadas. “Os médicos são muito bons, mas não são como antigamente. Antes eram irmãs de caridade que vinham cuidar da gente, davam banho na gente, levava a gente no banheiro, trocava as roupas. Hoje sem dinheiro não se faz nada”.

Quanto dinheiro será necessário para o olhar voltar-se para cima?

A fé sempre foi sua maior bengala e algo muito presente em sua vida. As irmãs de caridade também iam a sua casa fazer doutrina. No quarto, imagens católicas de Jesus Cristo, Maria, santos e o crucifixo de madeira tradicionalmente pendurado à cabeceira da cama. Cita, com muito carinho, os feitos do Padre Pedro, o qual educou seus filhos, catequizou e arrumou roupas para comungarem.

Talvez o que restou de Dona Diamantina seja expresso nessa sinuosa e ambígua ligação entre o choro e a risada ao narrar sua história. Como ela descreve, “a vida foi sim boa, mas também foi pobre, muito pobre”. Entretanto a força do seu peito, sua maior herança, emanou e faz com que aos 107 anos, ela consiga encerrar sua vida com essa frase: “A gente lida com o bom e a gente lida com o ruim. A gente lida com quem é delicado e a gente lida com estupidez também.”

A centenária não vê a hora de partir, porém mal sabe ela o quanto de si ficará na memória dessa comunidade, tantas vezes esquecida pela sociedade que insiste em não olhar para cima.

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