A cidade que sangra rosa choque

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Fotos: Gabriel Volinguer

Pink Bloc faz barulho nas ruas de Florianópolis

 – Gabriel Volinger –

Os camarões que a onda não levou

As luzes coloridas do giroflex da polícia cortavam a iluminação amarelada no trecho fechado para pedestres da Felipe Schmidt. Já passava das 21h e o centro da cidade estava pouco movimentado. Com olhares exaustos e suportando um frio de 7 graus, o grupo sentado no calçamento falava baixo, intimidado pela presença dos policiais. O Pink Bloc, ato itinerante que aconteceu na sexta, 10, já tinha disperso muito de seus membros, mas debatia com intensidade o rumo que o movimento cor de rosa tomou. A proposta desses atos, difundidos por movimentos feministas, ecologistas e LGBTs, é a ocupação massiva das ruas da cidade. As palavras de ordem eram claras: protestavam contra o governo interino de Michel Temer.

O ato foi organizado pelo Contrataque, campanha que foi criada pela defesa e ampliação dos direitos sociais e contra as chamadas políticas de retrocesso do governo Temer. O principal grupo pertencente a iniciativa é o MPL, movimento que se tornou conhecido em Junho de 2013. Haviam caminhado oito quilômetros, gritando pequenos hinos que demonstravam o caráter do movimento e fazendo barulho com instrumentos variados. De tambores de bateria a latinhas improvisadas, o grupo mexeu com os habitantes das ruas onde passou. O trajeto foi marcado pela intensa negociação com a Polícia Militar, que moveu parte de sua força armada para as avenidas do centro da cidade.

“Eles mudaram a postura, estão cada vez mais truculentos com os movimentos”, dizia uma manifestante com o rosto coberto, se referindo a ação policial. Muitos dos participantes se mantiveram em ação por mais de seis horas. Uma das faixas que restaram ao final do ato pintava o rosa choque da cartolina com os dizeres “Camarão que dorme a onda leva”. Ninguém ali havia pregado o olho.

Uma tarde de rebeldia

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O ato estava marcado para às 17h no Largo da Alfândega, região movimentada do centro da cidade. Os primeiros batuques da manifestação retumbavam nas paredes amarelas dos prédios históricos e eram cortados pelas vozes da multidão rotineira do lugar. Conforme o sol ia descendo, os clientes do Mercado Público, logo ao lado, olhavam com desconfiança a movimentação na praça. Sentados nos quiosques, bebendo cerveja alemã e esperando pelo pagode começar, olhavam desconfiada para a origem da barulheira, o som agressivo do manifesto e o cor de rosa do ato.

A sexta feira já havia sido incomum para os frequentadores do centro da cidade.  Às 15h, a praça Tancredo Neves havia sido ocupada pelo Por Nenhum Direito a Menos, ato organizado pelas frentes Povo sem Medo e Brasil Popular e pelo Ocupa Minc, campanha nacional que ocupa lugares ligados a cultura em cada estado. Marcada por ser uma praça cercada de prédios públicos, a Tancredo Neves é vista da Assembléia Legislativa, do Tribunal de Justiça, de dois fóruns e de uma superintendência da Polícia Federal. O grito dos manifestantes foi ouvido em todos esses lugares. O ato seguiu pelo trajeto  definido pela polícia militar, levando uma multidão atrás de um trio elétrico onde discursavam representantes das entidades que ajudaram na organização.

Enquanto o Por Nenhum Direito a Menos findava, próximo a praça XV de Novembro, o Pink Bloc se deslocava pelo antigo Terminal da Cidade, onde os comerciantes se movimentavam para fechar os estabelecimentos. Eram os primeiros passos da manifestação pela cidade. Alguns manifestantes que participaram do primeiro ato se juntaram a mancha rosa choque. Um bandeirão LGBT, com as cores do arcoíris, completou o bloco. Com mais vozes, a manifestação chamou a atenção das pessoas na calçada histórica de Florianópolis. Enquanto alguns coçavam barbas, cruzavam braços ou se mostravam desinteressados, os primeiros passos do ato contaram com outras feições cansadas que contribuiam com palmas e mensagens de apoio.

“A crise é dos ricos, o pobre é que se fode” entoavam os manifestantes. O palavrão causava sobressalto e confusão nos mais velhos, que não demonstravam revolta no primeiro momento do ato. O rosa choque passeava sem dificuldades pelas ruas iluminadas. Os manifestantes passaram escoltados pelas motos da polícia militar na  rua da Marinha do Brasil e da SCGás. A polícia os seguiria até o final do ato, filmando tudo. Quando atravessaram a sinaleira da rua Hercílio Luz, os carros tinham os faróis apontados para o rosto dos participantes do ato. Muitos deles cobriam o rosto. Já do outro lado, na rua dos fundos da praça Tancredo Neves, a José da Costa Moelmann, os carros estavam parados em toda via. O ato se espreitou por entre as fileiras de automóveis, mas não se dispersou.

No momento em que a manifestação atingiu seu quórum máximo, na praça Tancredo Neves, um sinalizador cor de rosa foi acendido.  O horário era próximo da saída dos funcionários do Tribunal de Justiça e da Assembleia Legislativa, que não puderam evitar olhar para a mancha de fumaça cor de rosa que subia da praça. O clima era festivo.

Um ato pulsante

A pequena rua dos fundos da Assembleia, a Dr Jorge Luiz Fontes, dá na Silva Jardim, que por sua vez continua até a Mauro Ramos, a avenida com maior tráfego do centro de Florianópolis. Pouco antes do cruzamento que desemboca para as avenidas, um grupo de motos da polícia se atravessava na rua, formando um bloqueio. O medo era de que a manifestação chegasse na Silva Jardim e fosse até a Mauro Ramos. Mas, o objetivo do grupo era ocupar as ruas maiores. A pequena distância entre as motos dos policiais foi o bastante o cor de rosa pulsar até a Luíz Fontes, que parou para o bloco passar.

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A polícia não teve escolha senão escoltar o Pink Bloc, que seguia com maior ânimo pelas ruas mais amplas. A situação ali era outra. Quem ficava para trás fazia sombra pelos faróis apontados para o final da mutidão. O Pink Bloc conduzia o início de um congestionamento.

Logo nos primeiros metros da avenida larga, a manifestação passa por duas igrejas evangélicas. Não era dia de culto na “O Brasil para Cristo” nem na “Renascer em Cristo”. A única movimentação era de pessoas observando na janela, com as luzes apagadas e uma pequena fresta na cortina, que escondia os observadores. O bloco ainda passaria por outras três igrejas evangélicas. Mas os primeiros passos na Silva Jardim mostrava um rosa choque mais animado. A grande bandeira LGBT carregada pelo ato esvoaçava mais forte.

Na divisa da Silva Jardim com a Mauro Ramos, um cruzamento amplo desce das ruas a direita, que demarca um limite importante da região. A partir dali, o cenário visto pelos manifestantes nas ruas de morros íngremes a direita é outro.

 

Avenida de contrastes

Se o Pink Bloc virasse a direita em qualquer uma das ruas que se seguiam, iria encontrar uma realidade diferente da avenida com canteiros e prédios comerciais. Se entrasse em um dos portões de ferro da beira da rua, descobririam vielas intermináveis, de escadas tão estreitas quanto a própria amplitude das pequenas ruas de construções antigas e apertadas, onde o bonde cor de rosa não caberia. “Aqui a gente não mora, se aperta”, define Júlio. Não há nenhum João Romão comandando as construções de madeira deteriorada, nem tampouco há romances que narrem as histórias dos moradores que paravam para ver o Pink Bloc passar, a caminho de suas casas . O naturalismo era sentido nos rostos cobertos de máscaras rosa choque, nos gritos uníssonos agressivos e na atitude dos manifestantes.

A Mauro Ramos é uma avenida de contrastes. O número 224, um centro comercial de 9 andares, faz sombra durante o dia em quatro construções históricas, coloridas no estilo açoriano, logo adiante. Os moradores das quatro casas coloridas saíram para ver o bloco passar. Como um cortejo presidencial, aplaudiam tímidos e tentavam entender as palavras entoadas pelos manifestantes. No prédio comercial, algumas pessoas acompanhavam silenciosamente o protesto pelas janelas iluminadas.

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Já era por volta das 19h quando  o grupo chegou ao Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), um dos mais importantes centros de ensino de Santa Catarina. O local distoa das outras faculdades públicas da ilha. Não havia nenhuma faixa de protesto visível na entrada do campus. Na Udesc, há pouco mais do que 3 kms dali, as manifestações são vistas em outdoors e faixas que não passam desapercebidas pelos pedestres. Na Mauro Ramos, no entanto, os protestos são silenciosos, escondidos do grande fluxo das pistas duplicadas, mesmo com algumas sedes de sindicatos na avenida.

O que mais chamava a atenção para quem cruzava os braços na fachada do IFSC era o grande número de carros que seguia o ato. Iam em velocidade de cortejo fúnebre, mas andavam. Comparado com outras manifestações, o bloco seguia rápido já que o grande objetivo era chegar na outra parte da cidade, fazendo com que as pessoas desinteressada na pauta, os detentores da maior parcela da renda da ilha, ouvisse o clamor do bloco. Para isso, os manifestantes teriam de passar toda a Mauro Ramos, que tem seu último número cruzando com a Avenida mais nobre da ilha.

Os cartazes rosa choque demonstravam um ato que tinha muito o que pedir. “Ei, Temer, não mexe no SUS”, um dos gritos entoados, foi ouvido diversas vezes nas fachadas das diversas clínicas médicas da avenida.  “Não sou terrorista, tudo o que eu quero são direitos trabalhistas” também era puxado com frequencia pela bateria. Um dos gritos finalizava com a máxima “essa luta é contra golpe por saúde e educação”.

Apenas um km antes, a esquina do Supermercado Imperatriz marca uma fronteira visível. A rua Major Costa parece com todas as outras laterais direitas da Mauro Ramos: pouco comércio, casas com portões altos, calçada estreita e subidas íngremes. No entanto, o final do asfalto, apenas a alguns metros do início dela, dá lugar para uma escada que se perde da vista para quem olha de baixo. A subida dá no Morro da Cruz, uma das comunidades mais desprivilegiadas da Ilha.

O Morro da Cruz tem acesso limitado a praticamente tudo que a Ilha da Magia dá como direito: tem pouca concentração de renda, acessibilidade extremamente debilitada e enfrenta o preconceito dos que moram ao pé do morro, os demais cidadãos florianópolitanos. A veia aberta nasce também da avenida Mauro Ramos e é uma das regiões mais carentes dos serviços básicos pautados pelo Pink Bloc.

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Súplicas não entendidas

Quando enfim o bloco alcançou a Assembleia de Deus, as tensões aumentaram. “Eu sou sapatão, eu sou viado, quero a igreja fora do Estado” gritavam com força os participantes do ato. Com a cara pintada por glitter cor-de-rosa, a catarse dos militantes do Pink Bloc era clara. O bloco ficou parado por algum tempo ali. A ampla praça que dá no templo de colunas romanas da igreja de Edir Macedo era ocupada pelos fiéis que pareciam se preparar para um dos cultos. Não demorou para homens vestidos com paletós e gravatas sacarem seus celulares e filmarem as siglas que ali se materializavam. Lésbicas, gays, bi sexuais, transexuais e intersexuais dançavam ao som das batidas dos tambores. Os vídeos vão parar nas redes evangélicas com textos que falam das agressividades do movimento. Não houve discussões, nem brigas. Os organizadores puxaram novamente o movimento, que seguiu com uma injeção de adrenalina.

Até ali, o Pink Bloc pulsava por si só, deixando um rastro de mais de um km de faróis acesos e luzes de alertas piscando. O bloco andavacom passos mais largos. Os contrastes da avenida pareciam cada vez mais perceptíveis. As construções históricas e deterioradas misturavam-se aos grandes prédios monumentais. Ali, a manifestação tinha uma cara heterogênea. Pessoas de muitas idades, mães com crianças,  Já havia mais de 2 horas de ato e o quórum era reduzido quando os participantes que levaram a faixa bem a frente do bloco se detiveram.

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O impasse que deteve o passo

No cruzamento com a rua Vitor Konder, a Mauro Ramos possui um elemento curioso do centro de Florianópolis. A esquina apresenta uma casa coberta por plantas trepadeiras, mas que visivelmente esconde uma construção de beleza e história grandiosa. Ali, na década de 20, um senhor vivia seu fim de carreira política: Hercílio Luz. Além da ponte com seu nome, o homem que por três mandatos foi governador de Santa Catarina, deu o atual nome a cidade: Florianópolis. A homenagem foi a Floriano Peixoto, que assumiu o cargo de presidente após a renúncia de Deodoro da Fonseca. Peixoto foi apelidado de Marechal de Ferro e ficaria orgulhoso da postura dos militares em frente a antiga casa de seu colega.

Montados em cavalos, os políias traziam escudos, cacetetes e  armas com balas de borracha. Segundo dados do Portal da Polícia Militar de Santa Catarina, a utilização da   guarnição militar especial de cavalaria é justificada porque “a utilização do cavalo pelo homem remonta à antiguidade, aos períodos de conquistas e das campanhas bélicas desenvolvidas em campo aberto”. Esse policiamento é utilizada pela PM do estado de Santa Catarina desde 1835 e é utilizado pela “colocação do homem em um plano mais elevado em relação aos seus oponentes”.

Os oponentes se detiveram a poucos metros da cavalaria que impedia o acesso a avenida Beira Mar. Se prostravam a frente de uma fila de quase 2kms de congestionamento. O congestionamento, que já andava em ritmo lento, arou, assim como o bloco. Não era previsto pelos manifestantes a manobra da polícia militar. Após minutos de incerteza, foi decidido pelos organizadores determinar os rumos ali, em assembléia.

Sentados no asfalto frio, para que todos pudessem ver quem, de pé, fazia a proposta, a assembléia foi o momento mais tenso do ato. De perto, agentes da Polícia Militar ouviam cada passo. “Não podemos nos render ao poder deles, vamos passar com tudo”, foi a primeira voz ouvida na assembleia. A dona da voz era Rari, transexual que participou do Pink Bloc desde o início. Os olhares cansados se mostravam desconfiados com a proposta. “Temos crianças aqui, e eles não vão pegar leve”, disse outra manifestante, com a camiseta do Movimento Passe Livre.

Depois de mais de 20 minutos de falas, quatro propostas haviam surgido: duas envolviam terminar o ato ali e outras duas falavam em enfrentar a força policial. A proposta acatada pelos manifestantes era de passar pela cavalaria pela calçada. Por se tratar de algo garantido por lei, não havia possibilidade de reação policial. A decisão foi acompanhada de perto pela polícia. Depois de decidido, os manifestantes se juntaram na calçada, liberando a pista para os carros, que permaneceram parados pelo bloqueio da polícia. Os organizadores negociavam a passagem.

Após mais 20 minutos de incerteza, a resposta da polícia era clara: não deixaria o bloco passar nem pela calçada. Mas a própria PM ofereceu outra proposta: Parar a pista contrária da Mauro Ramos para que o Pink Bloc voltasse pelo mesmo trajeto. “Eles não querem que a gente chegue lá”, preconizava Samantha, uma das participantes do ato. “Nós sabemos quem a polícia defende”, dizia um outro manifestante do movimento. Por fim, decidiram acatar a proposta da polícia.

A volta de quem não chegou lá

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Todos estampavam no rosto uma expressão cansada quando voltaram pela Mauro Ramos. Os números nos edifícios agora diminuíam, assim como a força do canto dos manifestantes. Voltavam na direção contrária do congestionamento deixado pelo ato. Enfrentavam o olhar de quem estivera por mais de uma hora no trânsito parado. Mas isso não impediu que motoristas e passageiros se juntavam ao grito do Fora Temer, incentivando o passo do bloco e aplaudindo a causa.

Em dado momento, a voz do alto dos prédios era ouvida. Xingamentos e chacota, que foram respondidas nas palavras de ordem do movimento. Não se ouviram panelas batendo. Foram 3 horas para chegar até muito próximo do fim da Mauro Ramos, mas a volta não levaria mais do que meia hora. A polícia conduziu o ato para ruas mais silenciosas. Ao longe ainda era possível ouvir as buzinas do congestionamento da Avenida. O bloco cor de rosa seguia mais silencioso.

As ruas de noite amarelada chegavam cada vez mais perto. Uma das organizadoras, de rosto coberto, quebrava o quase silêncio do ato que findava. Gritava, tendo uma resposta imediata da ponta a ponta dos que resistiram: “O poder do povo vai fazer um mundo novo”.

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