A natureza enquanto professora no ensino da geografia

Fernanda_Felizari_agrofloresta

 – Fernanda dos Santos Felizari –

A todo o momento o ser humano está transformando ou se utilizando do espaço, seja quando a criança aperta o botão para tomar a água da escola, ou quando mexe na terra pela primeira vez. Saber de onde vem aquela água e para onde vai; saber de onde veio cada pessoa, e o porquê de estar ali; procurar entender onde a gente pisa; isso tudo é geografia.

A geografia é a ciência que estuda a superfície da terra e suas relações com os seres humanos. Considerando-a como responsável pela compreensão crítica do ambiente em que vivemos, a dissertação “Horta Escolar como Projeto Pedagógico na Educação Geográfica”, defendida por Juliana Cristina Bertoloto no programa de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), buscou desenvolver hortas agroflorestais em uma escola pública de Florianópolis e analisar a inclusão dessa prática no ensino da geografia. A orientadora foi a professora Rosa Martins.

A pesquisadora notou uma necessidade de estimular a aprendizagem dos processos envolvidos no uso do espaço e as práticas sociais para a produção de alimentos. Principalmente, por se tratarem de alunos de uma escola urbana e consumidores de produtos rurais. Ao todo, foram realizadas dez oficinas com alunos do sexto ano do ensino fundamental na Escola de Educação Básica Simão José Hess, em parceria com a professora de geografia.

O sistema utilizado nas hortas foi o agroflorestal, que mistura árvores com produtos agrícolas, leguminosas e verduras. Esse modelo baseia-se na importância de ter uma espécie ajudando a outra como, por exemplo, árvores fazendo sombra no verão para plantas sensíveis ao sol intenso. O Brasil possui clima tropical, mas geralmente os canteiros são inspirados em países de clima temperado. Por isso é comum a retirada de florestas para elaborar uma plantação. Juliana Bertoloto critica essa prática. “A gente tem a mentalidade de que uma horta é toda padronizada. Se nascem matinhos, tiramos os matinhos, se nasce uma goiabeira não é bom, é tudo só alface, ou só brócolis, ou só repolho. Mas as plantas precisam uma das outras para sobreviver.”

O espaço utilizado para organização do canteiro agroflorestal localiza-se nos fundos da escola, próximo às quadras de esporte. A dificuldade residiu nos entulhos que precisaram ser retirados. O solo não era original da área, que foi aterrada com solo arenoso, de baixa fertilidade. Mas como neste espaço da escola já era desenvolvido há algum tempo práticas de plantio, havia algumas espécies arbóreas, arbustivas, herbáceas, trepadeiras e raízes que puderam ser aproveitadas.

Segundo a pesquisadora, no decorrer do projeto foi possível perceber o quanto a prática de um canteiro agroflorestal como tema para o ensino da geografia é eficaz e deu sentido para os saberes geográficos. Uma vez que foram trabalhados conteúdos relacionados com a realidade cotidiana dos estudantes, principalmente relacionados à produção e consumo de alimentos. A aluna Ana Carolina gostou de aprender a trabalhar em grupo. “Eu aprendi a plantar e a ajudar o meio ambiente. Foi como aprender a escrever com a enxada.”

Os objetivos principais alcançados na pesquisa foram o desenvolvimento do canteiro agroflorestal, relacionando com os seguintes temas nas aulas de geografia: relação dos homens e das plantas com o meio-ambiente; formação do solo; lixo e reciclagem; diferenças entre agricultura convencional, agricultura orgânica e agrofloresta. Mas principalmente o despertar de uma consciência ambiental. “É interessante notar que o projeto fluiu de maneira que, em primeiro lugar, os estudantes se aproximaram do local de plantios, despertando sensações, desejos, curiosidade e estímulos. Percebemos que alunos gostam de aprender quando o aprendizado faz sentido”, conta Juliana. Segundo a pesquisadora, vários conteúdos da geografia poderiam ser tratados de maneira mais prática. “Espero que possa auxiliar educadores e outras pessoas que, como eu, acreditam que a natureza é a melhor professora, inspiradora e ajuda a resgatar nossa essência enquanto seres-humanos.”

São várias as ações realizadas em Florianópolis e na UFSC de modo a divulgar e consolidar práticas agroflorestais. Por exemplo, há o Sítio Flor de Ouro, no bairro Ratones, onde o proprietário recebe escolas com a finalidade de educação ambiental. Na UFSC, vinculadas às disciplinas de Permacultura, Agroecologia e Sistemas Agroflorestais, há práticas e pesquisas na Fazenda Experimental da Ressacada. No curso de Biologia há um projeto de extensão pelo qual os estudantes desenvolvem uma agrofloresta na universidade. E também existe o Núcleo de Estudos Ambientais (Neamb), que visa a integração dos diversos cursos de graduação e pós-graduação através de projetos interdisciplinares voltados para a sustentabilidade em escolas, unidades de conservação, bacias hidrográficas e municípios.

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