Estereótipos racistas afetam crianças da periferia

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 – Andressa Santa Cruz –

Já é noite e faz muito frio. A falta de iluminação deixa a rua bastante escura e não há mais ninguém por perto. Exceto por esse homem que você viu descendo o morro e que agora está vindo em sua direção. Ele veste moletom escuro, está com as mãos nos bolsos e tem um capuz tampando o rosto. Você cogitaria mudar de calçada? Se sim, isso se chama viés inconsciente. “São ideias espontâneas que todo mundo tem de todo mundo. Você já olha para o outro e seu cérebro pensa sozinho: ladrão”, explica a estudante de psicologia da Universidade de São Paulo, Gabriela Neves.

Na verdade, esse homem que você pode ter pré-conceituado como uma ameaça é uma criança. Ele se chama João*, tem 12 anos e estava indo encontrar a mãe no ponto de ônibus para ajudá-la a carregar as compras até em casa. “Quando eu vou lá embaixo, a madame me vê e segura a bolsa perto do corpo”, conta João. Lá embaixo é como ele e seus vizinhos se referem ao mundo em volta do morro onde moram, no centro de Florianópolis.

Conforme as explicações de Gabriela, a reação da madame está relacionada a falta de ponderamento durante o ato de pensar. “Somos culturalmente programados a pensar X sobre X pessoa quando vemos X características. Ouvimos centenas de vezes que menina de saia curta é puta. Quando vemos uma, nosso cérebro tem preguiça de ponderar e recorre ao viés inconsciente, que é a junção dos estereótipos e pensamentos prontos que sempre ouvimos, e conclui rapidamente: ela é puta”.

Uma das brincadeiras prediletas de João é empinar pipa. “Às vezes voa tão alto que vai embora”, ele narra. Em uma das vezes, a pipa realmente voo longe e caiu lá embaixo, ao pé do morro. João foi com mais dois amigos buscar, mas voltaram para casa sem pipa e assustados. “Os policias revistaram a gente e ficaram zoando a nossa cara… O João se cagou todo”, relata Francisco*, um dos meninos que também foi abordado.

Um policial que prefere não ser identificado explica porquê a abordagem desse tipo é comum em meninos como João. “Não suspeitamos de uma pessoa, mas sim de seus trejeitos. E os jovens negros, gostando ou não, são os que mais cometem crimes”. A generalização se baseia em uma pesquisa divulgada em abril de 2016 pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, o qual revela que 61% dos presidiários brasileiros são pretos ou pardos.

Entretanto, João e seus amigos (ao todo, 9 meninos negros entre 11 a 14 anos) negam veemente qualquer envolvimento com o mundo do crime. “Tem uns amigos nossos que estão nessa… Mas eles não são bem cobrados que nem a gente”, revela João. Bem cobrados é como se referem aos que contam com o apoio e orientação da família. “Nós estamos sempre de olho. E mesmo quando estamos trabalhando, todo mundo aqui no morro ajuda a cuidar”, explica o pai de João.

Alguns sociólogos relacionam o crime cometido pelos mais pobres como consequência social, por ser uma forma de eles adquirem bens que a família ou o Estado não os concede por direito. Os negros representam 74% dos índices de pobreza no Brasil de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Porém, apesar dos dados e interpretações sociais, é impossível apontar concretamente as causas por trás de uma atitude criminosa ou prevê-las.

João e seus amigos chegando da escola e indo brincar nas escadarias do morro onde moram.

João e seus amigos chegando da escola e indo brincar nas escadarias do morro onde moram.

“Quando a gente vai no mercado, ficam todos de olho na gente, achando que a gente vai roubar. E eles não fazem isso com os meninos lá de baixo, com os filhinhos de papai. Mesma coisa quando a gente vai no shopping… Os seguranças ficam rondando a gente e eles não fazem isso com os brancos”, João desabafa. Para ele, essa atitude é racista. “Racismo é quando não tratam os outros como gostariam de ser tratados”, afirma João com a ajuda dos amigos.

Em 2012, durante uma declaração pública, a então ministra da Promoção da Igualdade Racial Luiza Bairros reconheceu a diferença no tratamento policial com a população negra: “Estereótipos e preconceitos racistas acabam determinando a forma como eles [os policiais] abordam diferentes tipos de população, e no caso da juventude negra existe sempre uma tendência de associar o jovem negro ao bandido, ao criminoso”.

Conforme os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os jovens negros de periferia – como é o caso de João – estão 2,5% vezes mais sujeitos à violência do que os brancos. Para Luiza Bairros, é necessário que haja um trabalho na linha do racismo institucional, reeducando os policiais. Já para a futura psicóloga, Gabriela Neves, o problema é cultural: “Temos que mudar as crenças sociais. Se as crianças parassem de ouvir que menina que usa saia curta é puta e ouvissem apenas que todas as meninas merecem respeito, o viés inconsciente seria outro. Mesma coisa em relação ao racismo velado que está presente em todas as esferas sociais, em todas as profissões. Todo o povo brasileiro precisa ser reeducado”.

Enquanto isso, João e seus amigos não trocam a vida no morro por nada. “Pelo menos aqui em cima não tem racismo. Todo mundo é igual. A gente só quer que nos deixem em paz. Nós não somos bandidos… A gente só quer estudar ou ser jogador de futebol”, conclui João.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das fontes.

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