Ilha da Magia

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Como e porque surgiu o cognome da capital catarinense

 – Andressa Santa Cruz –

Vassouras, caldeirões e chapéus pontudos. Apesar da magia de Florianópolis ser atribuída frequentemente às praias paradisíacas que contornam o seu litoral, as lendas locais destacam outro tipo de misticismo: a bruxaria. Há 400 anos, os colonizadores que chegaram à Ilha de Santa Catarina contaram com a companhia de fugitivas do tribunal eclesiástico europeu, as tão temidas bruxas da inquisição que estão eternizadas na cultura florianopolitana.

Ao procurar pacotes de viagem para a capital de Santa Catarina, o destaque é quase o mesmo: venha conhecer os encantos da Ilha da Magia. Em seguida, veem-se fotos e descrições de atrações da cidade que fazem jus à fama de mágica. “As pessoas que visitam Florianópolis vêm atrás de descanso que é facilmente proporcionado pelo clima de calmaria, paz e harmonia da região devido as belíssimas paisagens nativas”, explica o turismólogo Bruno Leão. Entretanto, a ironia é que o apelido dado à cidade nada tem a ver com calma e tranquilidade.

Franklin Cascaes foi um pesquisador da cultura luso-açoriana que dedicou parte da sua vida à resgatar lendas regionais e eternizá-las através de sua arte. Ele foi o criador de uma das obras de maior referência cultural e identitária local: O fantástico na Ilha de Santa Catarina. No livro, o autor narra estórias bruxólicas de seres que faziam sopa com bebes em caldeirões, sabotavam o trabalho dos agricultores e que voavam pelos céus amaldiçoando a cidade.

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Nascido no começo do século XX, Cascaes recorreu aos antigos moradores da ilha para conhecer os mitos que surgiram ainda durante a colonização açoriana. Ele chegou a conviver cotidianamente com os pescadores e agricultores descendentes diretos dos 6.071 açorianos que desembarcaram no litoral catarinense.

Seus relatos e pesquisas confirmam os contos sobrenaturais envolvendo magia negra que surgiram há 500 anos, principalmente durante a inquisição na Europa. Ainda segundo Cascaes, havia uma diferença entre as magias: as realizadas pelas bruxas eram malignas e as realizadas pelas feiticeiras visavam o bem.

Mesmo com essa diferença apontada pelo historiador, cerca de 40.000 mulheres foram queimadas nas chamas purificadoras da fogueira em quase três séculos de perseguição na Europa. Tudo estimulado pelas superstições, pelo tribula civil e principalmente pela Igreja Católica, tendo o apoio da população assustada com as guerras religiosas, fome e doenças que assolavam o continente. Já aqui no Brasil, apesar de haver mulheres que praticavam as mesmas magias de suas contemporâneas europeias, a caça às bruxas não foi disseminada.

Como o próprio Cascaes mostra em suas obras, as magas não eram apenas velhas corcundas de narigão, que comiam criancinhas e que realizavam rituais com fins maldosos. Pelo contrário, havia as feiticeiras, tão temidas pelos leigos e clérigos europeus, mas que exerciam o papel de curandeiras e benzedeiras. Elas sabiam identificar plantas e ervas e dominavam seus poderes de cura. E quem entende tanto de curativos, também sabe ser letal. Daí a fama de hábitos peçonhentos e de quererem acabar com o reino de Deus. Mas, apesar da má fama, eram elas quem mais se aproximavam da pràtica medicinal durante o Brasil Colônia e que cuidavam da saúde da população.

Os portugueses que foram chegando na Terra de Santa Cruz, na era colonial brasileira, obviamente não dispunham dos mesmos recursos que estavam acostumados na Europa. E, com a ausência de assistência médica, eram as curandeiras quem preparavam poções mágicas para remediar doenças, tratar de enfermos e, diferentemente do que os contos retratam, elas não tiravam as vidas de bebes e crianças para fazer rituais. Pelo contrário! Uma de suas principais funções era como parteiras, ajudando mulheres grávidas a darem a luz.

Em Florianópolis não foi diferente. Os açorianos estavam certos de que haveria bruxas na Ilha da Nossa Senhora do Desterro, como foi batizada a cidade na época, porém suas magias não tinham nada de nocivo. Elas atuavam quase que como médicas holísticas (vertente da medicina que defende a integração dos seres vivos com a natureza), recorrendo à sabedoria popular e as energias espirituais para promover o bem estar social.

O costume de benzer e curar persiste até hoje na capital catarinense. Nesses quase 500 anos de tradição, foram só nas últimas três décadas que o hábito de recorrer à fé das curandeiras perdeu força. Segundo o historiador e diretor do Núcleo de Estudos Açorianos (NEA), Joi Cletison, até os anos 1980 era comum a população local ir primeiro às casas das benzedeiras e só depois ao consultório médico.

Se Florianópolis foi apelidada de Ilha da Magia por causa da bruxaria regional e se essas bruxas eram na verdade mulheres que usavam plantas e rezas como remédio, logo a mágica da cidade está nas benzas de Ilda Martinha e de outras 39 curandeiras que ainda restam na Ilha de Santa Catarina, conforme o levantamento mais recente concluído em 2002 pelo NEA, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Elas moram em sua maioria no sul da Ilha. Por coincidência – ou não – a mesma região sul também foi o local preferido da colonização açoriana.

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