Opinião: Papa Francisco se aproxima dos libertários

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Após a repressão dos dois últimos pontífices, Teologia da Libertação é reconhecida pelo Vaticano

 – Andressa Santa Cruz –

A palavra liberdade e seus derivados não estão destacados por acaso. A Teologia da Libertação é definida prioritariamente por Leonardo Boff, seu principal consolidador brasileiro, como movimento que anseia libertar o povo da fome, da miséria, da degradação moral e da ruptura com os valores divinos. Ideais estes que estavam presentes na essência militante dos jovens cristão engajados na resistência ao Governo Militar, instalado no Brasil através do Golpe de 1964. Todavia, apesar da forte influência política, a reflexão teológica havia se tornado cada vez menos conhecida e estava morrendo junto com os seus adeptos octogenários, até um dos responsáveis pela sua quase extinção  – afastando-a da nova geração religiosa – começar a ressuscitá-la: o Vaticano.

A Teologia da Libertação surgiu e teve seu auge de adesão na América Latina, durante a repressão política que contaminou o continente no século XX. Não por coincidência, o pontífice da época, João Paulo II, indicou bispos conservadores para a região e apoiou grupos adversários aos teólogos libertários, como o Opus Dei, instituição do catolicismo conhecida pelas diversas conspirações que a acusam de apoiar regimes políticos autoritários como a Ditadura Militar brasileira. Em outra oportunidade, nos anos 1980, o cardeal Joseph Ratzinger – que mais tarde se tornaria o Papa Bento XVI – emitiu críticas em relação ao movimento. Na época, ele era guardião doutrinal do Estado católico.

Anos depois, quando o argentino Jorge Mario Bergoglio se tornou o primeiro latino-americano a tomar posse da Cátedra de Bispo de Roma e declarou em seu discurso que almejava “uma igreja pobre para os pobres”, o mundo passou a relacionar timidamente os posicionamentos católicos à natureza da corrente teológica libertária que aproximava os cristãos da pobreza. Aos poucos, as suspeitas foram se comprovando enquanto o Papa Francisco agia como sempre agiu durante a vida na Argentina: de forma modesta e simples, como quando preferiu manter sua cruz de aço ao em vez aderir a tradicional, feita de ouro e decorada com pedras preciosas.

Seis meses após assumir o posto mais alto da Igreja Católica (ao menos aqui na Terra), Francisco surpreendeu ainda mais ao receber em sua casa o padre peruano Gustavo Gutierrez, um dos fundadores da Teologia da Libertação. E foi também no pontificado do argentino que Gutierrez participou de sua primeira cerimônia oficial na sede católica em maio de 2015, mês em que o arcebispo salvadorenho Óscar Romero foi beatificado.

A incansável atuação contra a repressão militar em seu país fez de Romero o principal porta voz da Teologia da Libertação. Ele acreditava que “a missão da Igreja é identificar-se com os pobres”, pregando e praticando este evangelho até o fim da vida, quando foi morto com um tiro enquanto celebrava a missa. O atirador era um político de direita e ex-oficial do exército de El Salvador. A beatificação de Romero só veio 35 anos após seu assassinato e foi mais um ato que reforçou a aproximação do Vaticano com a teologia libertária. Provavelmente porque o Papa atual sente empatia pelo discurso do salvadorenho, diferentemente de seus antecessores.

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No Brasil, Frei Betto foi um dos católicos que renunciou a vida particular em prol da vida civil de todos os brasileiros durante a década de 1970, colaborando para que a vertente libertária não ficasse só na teoria. Quando questionado sobre o porquê da recente aproximação de Francisco com os teólogos adeptos da libertação, ele responde: “Porque ele é um homem do terceiro mundo e, sobretudo, um homem evangélico, e no Evangelho é muito clara a opção pelos mais pobres. Jesus foi morto como prisioneiro politico, assim como tantos sob as ditaduras latino-americanas. Foi preso, julgado, torturado por querer que os bens do trabalho e da natureza fossem partilhados entre todos e não acumulados por uma minoria”.

Há um ano, o jornal New York Times publicou uma matéria afirmando que o Vaticano fez as pazes com a teoria teológica, apontada por muitos como marxista por atacar o capitalismo. Os jornalistas inclusive recolheram depoimentos de conhecidos do então Jorge Bergoglio, afirmando que ele achava o pensamento “ideológico demais” em 1970. Quarenta anos depois, o Papa mudou o discurso e confirmou a suposição de frei Betto: “a pobreza cristã não é ideologia, é centro do Evangelho”. É que mesmo antes do papado, Francisco já vivia sob a doutrina do santo que lhe emprestou o nome e que defendia a pobreza como o caminho da plena liberdade. Âmago da teologia libertária que vê o pobre como protagonista da própria libertação e não apenas como objeto de caridade. “É que quem tem pouco, é mais livre”, explica o teólogo Fernando Altmayer, professor da PUC de São Paulo.

Mural do novo beato San Romero da América em El Salvador (foto APF).

Mural do novo beato San Romero da América em El Salvador (foto APF).

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