Servidão Corinthians: uma história de identificação

Fernando_ES_Servidão Corintians

 – Fernando Espírito Santo –

A rua é a mãe de várias outras servidões: Marques de Assis, Euclides, Manoel dos Santos. Nenhuma delas tem acesso à avenida principal, todas dependem da Servidão Corintians, que leva o nome do clube da esquina. As casas no início da viela são padronizadas e feitas para uma família de classe média. Percorrendo o corredor estreito e subindo o morro, as habitações começam a ficar irregulares, e erguidas rente ao meio fio, sem calçadas. Talvez herança da arquitetura açoriana, talvez a necessidade de ter um espaço maior para viver. Em alguns casos se nota que foram improvisadas, e sem querer os ‘engenheiros’ dessas obras dão pluralidade arquitetônica a esta parte da cidade.

O time de futebol tem sua sede campestre ao final da servidão em uma pequena colina. Ali são realizados os treinamentos, e o campo alugado para o time de Rugby Desterro, que participa da primeira divisão da liga nacional nesta modalidade. O dinheiro do aluguel serve para suprir parte das despesas do clube. Os jogadores mais velhos, aqueles que fazem parte da história do time e da ocupação da rua, contribuem com valores que variam de R$ 100,00 a R$ 200,00 cada.

O clube já deixou de participar de campeonatos porque o gramado não tem as medidas necessárias para as partidas segundo a Federação Catarinense. “O terreno do clube é alvo de disputa judicial com entidades que cuidaram do local em outros tempos”, disse um desconhecido que passava, e escutava a entrevista com Sandra Maria Maestro dos Passos, atual presidente do clube social. Ela não quis comentar o assunto. “É triste o que acontece”, lamenta Sandra. Em seguida, um olhar perdido, um suspiro de alívio e uma expressão de cansaço. Respeitei o momento.

Sandra Maria dos Passos, presidente do Corintians Catarinense.

Sandra Maria dos Passos, presidente do Corintians Catarinense.

Nos tempos de glória o Corintians colecionava títulos amadores. Fundado em 1931, o time já foi a São Paulo enfrentar a Portuguesa de Desportos, perdeu o jogo, mas esta história é contada no bairro pelos moradores. Virou lenda.

O Corintians Catarinense – assim mesmo sem o h – enfrentou graves crises ao longo de sua história, mas podemos encontrar em sua trajetória os elementos de resistência das classes menos afortunadas. O povoamento da área aconteceu primeiro na parte mais alta da rua, haja visto que o bairro Pantanal na parte mais baixa entre morros era um grande alagado que originou o nome do local. As pessoas que vieram morar ali eram de diversos perfis, mas em sua maioria “pessoas de fora”, como lembra Sandra. Localizada na esquina com a “geral” como dizem os nativos – a geral se trata da Avenida Edu Vieira, aquela que será duplicada ao lado da UFSC. Pedreiros, lavradores, motoristas de ônibus e padeiros eram as profissões mais comuns entre os ocupantes iniciais. “Foi um padeiro, inclusive, que fundou o time, ele amava o Corintians”, comenta.

Há uma grande identificação da comunidade com a história do clube, embora haja de fato poucos corintianos. Somente nos últimos anos os gestores do clube passaram a valorizar esta identificação e contribuir para o cotidiano das pessoas que vivem lá. “Conseguimos montar a escolinha de futebol para crianças e tiramos elas das ruas perigosas do bairro”, enfatiza Antônio Vicente da Silva, presidente do Centro Comunitário do Pantanal, que também atua na sede social do clube. O centro comunitário realiza diversas atividades na sede do clube, promove cursos pré-vestibulares aos mais carentes, possui um grupo de idosos que moram além dos limites do bairro, e ainda combatem a venda de drogas e a prostituição no local promovendo palestras sobre esses temas.  “O Corintians, aqui no Pantanal, tem mais de 80 anos, o centro comunitário não tem um quarto disso, para agirmos usamos a imagem do time”, salienta Antônio.

Antônio Vicente, presidente do Centro Comunitário do Pantanal.

Antônio Vicente, presidente do Centro Comunitário do Pantanal.

Sobre o centro comunitário e as necessidades dos moradores, Antônio faz um pedido: “Por favor políticos, olhem por nós, temos médicos, temos equipamentos, mas temos também uma reforma em nosso posto de saúde que dura mais de dois anos, e não podemos usar toda a estrutura disponível”. Além da reclamação de Antônio, a comunidade tem medo da duplicação, que ela venha a desapropriar casas e retirar a sede do clube do local, “O problema não é retirar a sede daqui, sabe? O problema é não darem nenhuma opção, não termos mais sede social, o campinho fica lá no morrinho, mas a sede é aqui na beira da esquina”, preocupa-se Sandra. E desta forma que se iniciam os processos de gentrificação nas cidades.

A proximidade com a UFSC trouxe ao local grandes empreendimentos imobiliários, como o vertical Atenas Park. Os estudantes buscam morar próximo da Universidade e buscam imóveis em bairros vizinhos. São estudantes de todas as classes sociais. Os estudantes que podem pagar por um apartamento de dois quartos na Av. Edu Vieira gastam em média R$ 2.000,00 incluindo condomínio, Solita Almeida, estudante de Design, gasta R$ 500, 00 mensais em uma kitnet na servidão Corintians. “Não tenho como pagar mais do que isso, aqui você encontra, na rua mesmo, kitnetes por R$ 1.000,00, aqui pago metade e não tem condomínio nem gasto a mais com internet, luz e água é tudo incluso”, ressalta Solita, que é de Guiné-Bissau.

O mais impressionante nesta comunidade, além da identificação com o clube, são as formas de resistência que estabelecem, a ajuda mútua e como se relacionam com quem vem de fora. “Nunca tive problemas aqui, tive em São Paulo, assim que cheguei, já me perguntaram na polícia federal porque saímos da África para estudar, uma ignorância”, finaliza Solita.

Solila de Almeida, guineense estudante de Design.

Solila de Almeida, guineense estudante de Design.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s