Violência nas escolas: o problema é de quem?

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 – Priscila Ribeiro –

Professora há 25 anos e orientadora educacional do Instituto Estadual de Educação (IEE) há cinco, Valíria Rodrigues acredita que a diferença no aprendizado e no cotidiano entre as crianças moradoras da periferia e as que vivem em locais privilegiados da cidade ultrapassa aspectos financeiros: envolve as relações familiares. Em famílias de classes mais baixas, normalmente os pais saem cedo para trabalhar e voltam à noite, às vezes ainda estudam. Para ela, o acompanhamento que os pais dão aos filhos ou não, pode definir divergências no desempenho escolar dos alunos.

A Escola de Aplicação (EDA) do IEE tem cerca de 1200 alunos, 600 em cada período do dia, e atende principalmente crianças de comunidades carentes da Grande Florianópolis. Valíria explica que o Instituto tem grande demanda e que os pais entram em fila de espera para matrícula dos filhos. “Na maioria dos casos, são pais que acham as escolas de seus bairros muito violentas e que tentam vaga no IEE pela fama de enfrentamento da violência e de bom aprendizado. Isso é o que a gente ouve por aí”. Valíria conta ainda que, no lugar da fila de espera, antigamente era feita uma seleção de alunos para a matrícula, que tinha uma característica histórica de classe média. “Até o fechamento de algumas escolas do centro como Antonieta de Barros, João Silveira e Celso Ramos, os alunos que estudavam na instituição eram filhos de funcionários públicos ou de comerciantes. Hoje, é meio a meio, é dividido com os ex-alunos dessas escolas que fecharam”.

Apesar da procura por ser uma escola com uma política de combate à violência, o IEE ainda enfrenta problemas dentro da instituição. A orientadora dá exemplos de casos de alunos que convivem com a violência em bairros periféricos e reproduzem na escola o que veem na vizinhança, nas ruas e dentro de suas casas. “Crianças são seres muito francos, então, elas vêm contar o que acontece no pátio da escola. Teve um dia que vieram contar que tinha uma gangue dentro do EDA. Elas falaram que essa gangue era um grupinho de alunos que protegem uns aos outros. Uma mãe veio me dizer que o filho chegou em casa contando que agora tinha um ‘segurança”.  Fui às salas de aula e fiz uma pesquisa para saber o que era essa gangue. A turma era do quarto ano e a maioria disse que gangue era ‘coisa de bandido’. Nesses casos, precisamos tomar decisões, porque eles aprendem esses termos em comunidades de alta violência. É uma liderança negativa”.

O que eu quero é que eles participem da educação dos filhos.

Durante sua atuação como orientadora educacional, Valíria trabalhou com diversas situações, tanto de violência quanto de sucesso. Ela cita o caso de um aluno do ensino fundamental que estava se envolvendo com tráfico de drogas, mas recebeu apoio de um professor e encontrou no esporte uma chance de ter um futuro melhor. “Nestes casos, temos que fazer a interação entre família, escola e estudante, sempre. A família é fundamental para o desenvolvimento da criança. Já tive uma situação em que o pai de um aluno aqui do EDA precisou vir até à escola e precisei negociar para ele vir, porque o pai é traficante. Aqui eu não quero saber se os pais são traficantes ou qualquer outra coisa. O que eu quero é que eles participem da educação dos filhos”.

A professora e pesquisadora da área de Pedagogia na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Caroline Kern aponta que, historicamente, a educação é considerada como a “salvação da humanidade”, uma premissa inválida, em sua opinião. “A educação não pode e nem deve ter a incumbência de salvar o mundo, mas por meio dela podemos sim transformar histórias de vida. Essa é uma questão fundamental. As escolas não podem, portanto, resolver questões estruturais das violências na sociedade como um todo sozinha. Isso seria derramar sobre a educação um ‘manto messiânico’, ilusório e falacioso”.

Para Caroline, as alterações da violência dependem de questões amplas, de diálogos com a sociedade, da alteração de um sistema econômico excludente e classificatório que não permite a todos e todas acesso aos bens materiais, embora prometa e instigue ao acesso. “Depende de políticas públicas que, muitas vezes, são rechaçadas pelas elites que não compreendem a dívida social que temos com as classes empobrecidas, com as pessoas negras, com as mulheres. Depende de políticas efetivas de combate ao tráfico de drogas, armamento, tráfico de pessoas, ou seja, depende de uma alteração na ‘ordem mundial’. As violências não são simples, são complexas e não podem ser compreendidas como uma ação entre um agressor e uma vítima, é muito mais amplo que isso”, afirma.

Se a gente conseguisse mais uma rede de apoio, formada por profissionais da área da saúde, as coisas seriam bem diferentes.

No IEE, o Núcleo de Proteção à Violência na Escola (Nepre) faz parceria com os postos de saúde no programa Saúde do Estudante, prestando atendimento psicológico às crianças e aos adolescentes da instituição de ensino. Valíria assinala que a parceria tem demonstrado resultados, mas ainda precisa melhorar. “O aluno que é encaminhado para o Saúde do Estudante entra na mesma fila que os cidadãos fazem parte para esperar atendimento nos postos de saúde. Se o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico precisa ser imediato, acaba não surtindo efeito. Temos um aluno do Monte Cristo, do quarto ano, que mal sabe falar, não lê e estava há seis meses esperando ser avaliado por uma equipe do Centro Catarinense de Reabilitação. Se a gente conseguisse mais uma rede de apoio, formada por profissionais da área da saúde, as coisas seriam bem diferentes”.

Valíria Rodrigues não vê o Instituto Estadual de Educação ou qualquer outra escola pública como uma exceção por atender crianças de comunidades e acredita que a violência está em qualquer lugar, até mesmo dentro de escolas particulares, entre as classes mais ricas. Apesar da violência trazida pelo tráfico de drogas das periferias de Florianópolis, a orientadora acredita sentir uma união maior entre as pessoas das comunidades carentes, como uma rede de colaboração. Para ela, o problema da violência dentro das escolas vai muito além das origens humildes dos estudantes. “Se os nossos governantes não juntarem saúde, educação e segurança, nós vamos para o caos. Precisamos fazer disso uma luta diária. A violência na escola é uma consequência de métodos ultrapassados, falta de estrutura, sim, mas também é reflexo da sociedade que a gente tem lá fora. E não ter como não ser”.

Precisamos de leis para que uma pessoa negra possa ser respeitada em seus direitos de ir e vir!

Caroline Kern reforça que as escolas não estão separadas do conjunto social, expressando e fundamentando a sociedade e refletindo o que os sujeitos em comunidade pensam, como agem nos diferentes espaços e se relacionam. “Não há uma ‘receita’ para que as violências não estejam nas escolas, já que para isso teríamos que resolver as violências em toda a sociedade, mas podemos ter ações que atinjam as comunidades escolares, as famílias, os profissionais e os estudantes, e neste movimento conjunto estabelecer diálogos que transcendam as violências. Temos um gama enorme de legislações já consolidadas que geram políticas que poderiam reduzir ou pelo menos dar condições de que as violências fossem reduzidas, contudo, elas não decorrem de ações apenas ‘do povo com o povo’, são muito mais amplas que isso. Aliás, o maior reconhecimento de que somos uma sociedade que exclui, que segrega e violenta é a enorme quantidade de leis que precisamos produzir para que possamos conviver em sociedade. Precisamos de leis até mesmo para que uma pessoa com deficiência possa ir para a escola regular! Precisamos de leis para que uma pessoa negra possa ser respeitada em seus direitos de ir e vir! Precisamos de lei para que uma pessoa LGBT+ possa ter sua identidade de gênero reconhecida! Isso não é violência?”.

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