Leitura: por um mundo mais cultural

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 – Carol Gomez –

 É muitas vezes de pequenos momentos que nascem grandes ideias. Não foi diferente com o projeto Confraria Literária do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina, iniciativa que busca fomentar a leitura principalmente entre os jovens.

Há quem diga que o brasileiro lê pouco e talvez seja verdade caso comparemos com outros países do mundo. Enquanto em lugares como a Índia as pessoas dedicam cerca de dez horas por dia à leitura, os brasileiros reservam mais ou menos cinco horas. A boa notícia é que a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em maio deste ano pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros, mostra que o número de leitores vem subindo. O levantamento indicou que existe um total de 104,7 milhões de leitores no país, 6% a mais do que em 2011.

Em meio a essa realidade, existem iniciativas e projetos que buscam incentivar a leitura principalmente entre as crianças e jovens. Em Florianópolis, a Prefeitura promove anualmente a Semana Municipal do Livro, que acontece próximo ao dia 18 de abril, data de nascimento do escritor Monteiro Lobato e Dia Nacional do Livro. A Semana traz atividades como contação de histórias, varais literários e exposição de livros em braile. Um dos projetos parceiros dessa ação é a Confraria Literária do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que realizou uma atividade sobre Mario Quintana como parte da programação deste ano.

O projeto surgiu em 2013 como ideia da professora de Língua Portuguesa, Arlyse Ditter. Foi da vontade de debater as leituras realizadas e das conversas de corredor inacabadas que o trio de dois alunos e uma professora criou o projeto que hoje já alcançou mais de 600 pessoas, em eventos semanais. Thor Lessa, 15 anos, é um dos alunos que participaram da criação da Confraria. Quando instigado a relembrar da primeira vez que se encontraram ele comenta que não estava muito esperançoso. “Mais cedo naquele dia eu havia passado nas salas avisando, mas não estávamos muito confiantes de que teríamos adesão. Esperamos após a aula, e depois de 10 minutos sem ninguém aparecer, estávamos prestes a fechar a sala quando surgiu um grupo de aproximadamente 15 estudantes”. O primeiro grupo de confrades estava criado. Sentados em roda no antigo Laboratório de Linguagem, eles debateram sobre seus livros favoritos, conversaram sobre o que era literatura e também como se envolveram com ela. O sucesso foi o resultado daquela e de muitas outras noites que fizeram parte do projeto. A maioria dos alunos que estavam naquele primeiro dia hoje estão no último ano de colégio, como é o caso do estudante Tadeu Barreto, que ainda participa. Apesar dos estudantes que permanecem, a cada ano uma nova turma de alunos tem contato com a Confraria, trazendo novas contribuições. Mariah Lima é estudante do sétimo ano do Colégio e desde o começo de 2016 está presente em quase todas as datas da programação. Leitora voraz, ela afirma gostar de tudo que se discute nos encontros, porém o que mais a faz participar é poder descobrir outras pessoas que gostam das mesmas coisas que ela e que estão dispostas a conversar sobre o assunto.

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Evento reúne público de todas as idades para debater sobre histórias.

O projeto reúne os alunos em ambiente escolar, porém de forma descontraída; é um espaço no qual cada um pode apresentar suas dúvidas, seus questionamentos, suas ideias sobre tudo aquilo que leem, ouvem e assistem sem medo de serem julgados ou avaliados por isso. Os encontros acontecem geralmente nos finais de tarde de sextas-feiras, mas com o crescimento do projeto novos tipos foram criados, como, por exemplo, a Sobremesa Literária, que acontece ao meio dia.

Nos encontros noturnos, os confrades chegam para o tão conhecido ritual: na mesa, dispõe a sua contribuição para o café coletivo que abre a reunião e aguardam o momento em que a professora Arlyse anuncia: está aberto mais um café. Depois é hora de sentar nos tapetes e banquetas do novo Laboratório de Linguagem, guardar os celulares e atentar-se ao convidado da noite. Os temas são variados: livros, filmes, músicas, poetas, autores, diretores de cinema, seriados e por aí vai. Cada evento tem a dinâmica de seu convidado e alguns recebem decorações temáticas como velas, balões, projeções na parede e até teias de aranha. Atualmente o projeto tem conseguido manter cerca de quatro eventos por mês, mas o número varia de acordo com a disponibilidade na agenda dos convidados.

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Devido a importância do projeto, em 2016 a Confraria alcançou mais algumas conquistas: ela foi selecionado pela Pró-Reitoria de Extensão (Proex) e pela Secretaria de Cultura (SeCarte) para receber uma bolsa de cada e também uma ajuda de custo da última. Com isso, o projeto pode imprimir material de divulgação na Imprensa Universitária, alugar equipamentos de som e contar com a ajuda de bolsistas; Otávio Francisco é um deles. Estudante de Design na UFSC, ele conheceu o projeto através da namorada, que é ex-aluna do Colégio. Sua primeira participação foi no Café Cinematográfico sobre o seriado Vikings, em 2015. Hoje ele trabalha como responsável por parte da produção gráfica da Confraria. Frequentador assíduo, ressalta que o diferencial das reuniões é abordar assuntos literários de forma descontraída e divertida. A professora Arlyse Ditter, coordenadora do projeto, explica que uma das dificuldades para se manter o projeto é a falta de tempo para organizar, já que a sua carga horária como docente toma grande parte das suas horas. Com a colaboração dos bolsistas, torna-se possível realizar mais trabalhos ao longo do ano e assim proporcionar mais debates culturais.

A Confraria não incentiva apenas a leitura e a troca de ideias, ela também cria laços de amizade e situações nas quais você não se imaginaria. Rachel Pantalena Leal hoje é professora de Língua Portuguesa no Instituto Federal de Santa Catarina, mas participou e foi importante colaboradora do primeiro ano de projeto. Para Rachel, a arte transforma e possibilita que os jovens entrem em contato com arte através das atividades propostas. Do projeto, ela já levou muito mais do que os debates; dele saíram até novas dinâmicas que foram aplicadas nas salas de aula. “Me lembro de uma vez que os alunos propuseram a leitura de trechos de suas obras prediletas e depois tínhamos que encenar o momento. Achei tão legal que levei a ideia para minhas aulas… Quando você faz essa troca com colegas de trabalho? Quando você vê seus pares como produtores de cultura? A Confraria possibilita isso…”

Tadeu, um dos primeiros participantes, acredita que, além de incentivar a leitura e o debate cultural, o projeto ainda contribuiu para a socialização dos estudantes. “Com os avanços tecnológicos estamos cada vez mais no nosso próprio mundo e é importante às vezes compartilhar seus interesses com pessoas de gostos comuns”, comenta ele.

Quem faz a Confraria

No site do projeto, uma mensagem reforça: nós somos todos os estudantes, professores, pais e amantes da literatura que participam das reuniões. O incentivo à leitura é feito de diversas formas e cada um contribui um pouquinho para que o debate fique completo.  A estudante de biblioteconomia, Bruna Morgado é uma das pessoas que começou a frequentar o projeto este ano e já acrescentou suas vivências ao grupo. “Trazer a voz do jovem para um espaço de discussão e criação de ideias é muito importante para o desenvolvimento de pensamento crítico e autoconfiança dos alunos”, comenta ela sobre a importância do espaço de debate.

Os confrades fazem da rua e de sua casa uma extensão da suas vivências no projeto, contando aos pais e amigos o que acontece nos cafés. “Sempre conversamos sobre os encontros, sobre a dinâmica, sobre os convidados, sobre a mentora do projeto, sobre os temas. E a cada conversa travada ficamos mais e mais empolgadas com tudo, sempre ansiosas pelo próximo”, conta Sandra Gonçalves, participante e mãe de uma das alunas que frequentam o espaço. Nos três anos de existência o projeto mantive seu público, que fielmente faz-se presente a cada sexta-feira, muitas vezes independente do assunto que será discutido. Os estudantes e também professores chegam animados, confraternizam e aprendem novas coisas um com o outro. “Encontrei visitantes com brilhos nos olhos quando estavam naquele espaço, que em tempo algum nos meus 43 anos vi em outro lugar. Pessoas que saíram de lá, tristes, porque sabiam que não iriam estar presentes sempre, porque a correria da vida não nos permite”, também comenta Sandra.

O espaço inspirado nos clubes de leitura da adolescência da coordenadora do projeto, nos quais voluntariamente jovens se reuniam para discutir os livros que liam, vai ganhando espaço dentro da universidade e também no coração daqueles que participam dos encontros.

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Aluna decora camiseta com um poema, proposta do evento Poesia em Movimento.

 

Por mais leitura em Florianópolis

Além da Confraria e da Semana Municipal do Livro Infantil existem várias outras atividades que incentivam a leitura na cidade. A Barca dos Livros – Porto de Leituras é uma delas.

Hoje instalada no Lagoa Iate Clube, a biblioteca comunitária funciona há nove anos e é mantida pela Sociedade Amantes da Leitura. As atividades realizadas pela Barca vão além do fazer empréstimo de livros; ela também mantém alguns projetos. Como exemplos temos a Histórias na Barca dos Livros, no qual um barco é alugado e os participantes podem ouvir histórias serem contadas enquanto passeiam pela lagoa, A Escola Vai à Barca, pelo qual turmas de ensino fundamental, médio e ensino de jovens e adultos podem conhecer a biblioteca e receber indicações de leitura e também atividades de formação de mediadores de leitura. Em 2014, a biblioteca recebeu o Prêmio VivaLeitura, promovido pelos Ministérios da Cultura e da Educação e pela Organização dos Estados Ibero-Americanos, e foi eleita a melhor biblioteca comunitária do Brasil.

Florianópolis também abriga a Bilica: Biblioteca Livre do Campeche. A iniciativa surgiu em 2007 e nasceu da vontade que um grupo de moradores do Campeche tinha de oferecer livre acesso aos livros e valorizar a cultura. A Bilica funciona com a ajuda de voluntários e doações, e suas atividades são gratuitas e abertas a toda comunidade. Além da leitura, o lugar também oferece aulas de teatro gratuitas para crianças de até 12 anos.

O programa Floripa Letrada: A Palavra em Movimento é responsável por espalhar livros pela cidade. Desde 2010, os cidadãos têm à disposição, de forma gratuita, livros e revistas para serem lidos na espera do transporte coletivo, dentro do ônibus ou durante o trajeto da viagem. Floripa Letrada é uma parceria entre a Secretaria Municipal de Educação e a Secretaria  Municipal de Transportes, Mobilidade e Terminais e tem como objetivo disseminar a leitura na capital.

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