Quando a tecnologia se torna velha

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Consciência humana não acompanha a velocidade do avanço tecnológico.

Lixo eletrônico representa sérios riscos à biodiversidade.

 – Vitor Sabbi – 

Sabe aquele celular que você viu, desejou, comprou e hoje não usa mais porque está ultrapassado? Ele até pode parecer inofensivo aí guardado em sua gaveta, mas não é. Alguns dos seus componentes possuem os chamados metais pesados, tais como arsênio, chumbo, cádmio e mercúrio, que ao entrarem em contato direto com a natureza acabam comprometendo a vida em nosso planeta.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep), o Brasil apresenta a maior produção de resíduos eletrônicos per capta entre os países emergentes, o que significa meio quilo de lixo tecnológico por pessoa a cada ano. É um grande volume de rejeitos que, quando depositado em locais inadequados, como nos lixos comuns, apresentam riscos à saúde humana e ao meio ambiente devido à presença de substâncias químicas tóxicas em sua composição.

Os dados da Unep tornam-se mais preocupantes quando levamos em consideração o último levantamento do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, feito em 2014, o qual mostra que apenas 724 das mais de 5.500 cidades brasileiras têm algum tipo de coleta de lixo eletrônico. Ou seja, produzimos muito resíduo e tratamos pouco.

O pesquisador em resíduos sólidos urbanos e toxicologia ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), José Barrios Restrepo esclarece que depois que o lixo eletrônico vai para um aterro comum, ou para um lixão, é impossível controlá-lo. Dependendo do meio onde ele cair, os metais pesados podem se dissolver. Em um rio, por exemplo, as substâncias tóxicas podem ser absorvidas pelas algas, delas um peixe vai se alimentar e depois um carnívoro comerá o peixe. Neste ciclo, todos estarão contaminados.  “Tudo o que você joga na natureza vai voltar para você outra vez”, destaca Restrepo.

No corpo humano, assim como no meio ambiente, depois que o metal pesado se dilui não é possível retirá-lo. Os danos podem ser ainda maiores se considerarmos que geneticamente uma pessoa contaminada pode passar para seus filhos. De acordo com o professor Restrepo, o organismo de uma pessoa infectada por metais pesados sofre alterações. Por exemplo, se contaminada por chumbo pode desenvolver problemas respiratórios. Isso porque o ferro presente na hemoglobina, proteína responsável por carregar o oxigênio no sangue, pode ser substituído pelo chumbo, que possui uma valência química parecida com a do ferro. Mas o chumbo não transporta oxigênio e a pessoa infectada pode vir a morrer por insuficiência respiratória.

O consumo exagerado e a falta de conscientização dos indivíduos são as principais causas do problema do lixo tecnológico. Grande parte da sociedade não reflete sobre dar o maior tempo de vida útil aos equipamentos eletrônicos e, pior, não sabe que eles não devem ser descartados juntamente com o lixo orgânico e reciclável. Então, deixam-no guardado em casa ou, muitas vezes, o depositam em lugares não apropriados, gerando além do problema ambiental outro de cunho social.

Sandi Albino é estudante e mora em Florianópolis há mais de um ano. Guarda em sua casa baterias de celulares que não funcionam mais. Sabe que esses equipamentos representam um risco à saúde humana se não descartados corretamente, mas continua mantendo os resíduos em casa por não haver pontos de coleta na Trindade, bairro onde mora.

A dificuldade de Sandi em encontrar locais adequados de descarte desses utensílios não é por falta de lei. Lançada há seis anos, a Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê a implantação da Logística Reversa, em que importadores, fabricantes, distribuidores e comerciantes devem promover a coleta e a destinação correta dos produtos que fabricam. Mas para o pesquisador José Barrios Restrepo, falta fiscalização da Logística Reversa. “Deve ser fiscalizado de perto se a empresa que vendeu o equipamento está pegando de volta e o que está fazendo com as peças”, afirma.

Alternativas

Em Florianópolis, a Companhia de Melhoramentos da Capital (Comcap) disponibiliza quatro pontos de coleta de resíduos eletrônicos, os chamados Ecopontos. Eles recebem até três equipamentos por vez. Isso porque a preocupação é em tratar o lixo eletrônico doméstico. O lixo industrial, produzido em larga escala, deve ser gerido pelas próprias indústrias de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

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Lixo eletrônico no Ecoponto do Itacurubi: recebem até três equipamentos por vez.

Todo material recebido pela Comcap é encaminhado então para o Comitê de Democratização da Informática de Santa Catarina (CDISC), onde buscam reutilizar a maior quantidade de material possível. São descartados apenas os rejeitos dos equipamentos, aquilo que não é possível aproveitar novamente.

Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), não há um trabalho efetivo de gestão do lixo produzido. Mas já existe um grupo responsável por pensar na criação de um Plano de Gestão de Resíduos Sólidos na Universidade. Esse Plano visa adequar a instituição na Política Nacional de Resíduos Sólidos, já que é considerada uma grande geradora de resíduos, assim como indústrias. De acordo com Branda Vieira, uma das responsáveis por implantar o Plano na UFSC, ele deve estar funcionando até março de 2017.

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Existem cinco PEV na UFSC: no CCE, CTC, CCA, BU e Colégio de Aplicação.

Até lá, o que existe na instituição são cinco Pontos de Entrega Voluntária (PEV), onde a comunidade universitária pode depositar equipamentos tecnológicos que não utilizam mais. Os PEV são uma iniciativa do Comitê de Democratização da Informática e não podem ser descartados neles equipamentos de patrimônio da Universidade. Todo resíduo deixado nesses locais são encaminhados para o CDI.

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