Uma verdadeira aula aberta

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Eduardo Marinho viajou 25 horas para compartilhar sua experiência de vida e bater um papo com os universitários. Para ele, “a necessidade real da vida é abstrata: integração, solidariedade, afetividade”.

  – por Eduardo Martins Fróis –

Foi numa antiga e barulhenta kombi azul e branca, a Celestina (por causa do tom celeste), que o filósofo de rua Eduardo Marinho cruzou quatro estados trazendo a família a bordo. Junto vieram seus desenhos e alguns instrumentos musicais para interagir com as pessoas. Ele veio contar sua história de vida, a quem pudesse se interessar. Com breves paradas no caminho, o grupo levou pouco mais de um dia inteiro na estrada para vir de Niterói, no Rio de Janeiro, até o campus da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Mas para quem já viajou as cinco regiões do Brasil de carona, a distância de 1.200 quilômetros não é nenhuma novidade. Quando o motor da Celestina silenciou em frente a Reitoria, com o dia ainda claro, jovens que reconheceram Eduardo logo partiram de encontro ao motorista magrelo e barbudo.

O Bate-Papo com Eduardo Marinho – nome dado ao evento no facebook que já contava com mais de 1.900 pessoas interessadas – estava marcado para as 18 horas da quinta-feira, 8 de setembro, na concha acústica da UFSC. Enquanto os organizadores acertavam os detalhes do equipamento de som, Eduardo respondia atenciosamente às indagações dos curiosos e estudantes de jornalismo. Ele ficou conhecido ao gravarem, postarem e compartilharem nas redes sociais diversos vídeos em que expunha suas ideias. “O primeiro [vídeo] foi lá atrás, em 2009, quando eu falei para dois estudantes de jornalismo que estavam gravando o TCC”.

Dentre outras coisas, ele aborda no documentário as únicas necessidades na vida do ser humano, os “cincos As”: água, ar, alimento, abrigo e agasalho. A partir da repercussão que teve o vídeo gravado em baixa resolução e com uma edição amadora, Eduardo Marinho foi procurado para dar seu depoimento a outros cinegrafistas. Sua oratória convicta e bem-humorada chama atenção, sobretudo pela crítica aos hábitos e ambições da parcela mais rica da sociedade, a qual ele também fazia parte. Fazia, porque descontente com a vida de estudante de direito, Eduardo tomou uma decisão que aflige a cabeça de muitas pessoas insatisfeitas com o que fazem: largar tudo. “Eu quis experimentar o que é não ter nada. A maioria não tem nada e vive tranquila. Como é que eu olhava a minha volta e estava todo mundo apavorado, com medo de perder seus privilégios?”

Marinho nasceu na década de 1960, pouco antes do festival de Woodstock, no auge da contracultura. O movimento hippie da época já questionava valores culturais como o patriotismo, o consumismo, o trabalho, o nacionalismo, a estética padrão e a ascensão social. O filósofo de rua que viaja o país com a família dentro de uma kombi parece ter se inspirado na história de Sal Paradise, narrador-personagem do livro On the Road, que influenciou grande parte da geração de jovens que buscavam autoconhecimento e apreciação da liberdade.

O público se arranjava no gramado em frente ao Centro de Comunicação e Expressão (CCE), voltado para a concha acústica. Estava escuro, e soprava um vento frio, quando um rapaz com a camiseta do coletivo Sintoniza, idealizador do encontro, anunciou ao microfone que iriam encerrar as inscrições para o sarau que antecederia a fala de Eduardo. As poesias começaram a ser declamadas pouco depois das 18h30, enquanto ainda chegava mais gente. Em seguida, de blusa grossa e touca peruana, Eduardo Marinho caminhou timidamente até o centro da concha sob os aplausos dos espectadores. Viam-se alunos e professores espiando das janelas do bloco A do CCE.

Com as mãos no bolso da calça, caminhando lentamente, ele tentou resumir sua história de vida… “Vocês já sabem mais ou menos da história toda, né? Preciso contar tudo de novo?” Após o público responder que sim, Eduardo se sentou na cadeira de madeira colocada no palco e começou a narrar sua lição de vida. Falou de como era “infeliz vivendo a vida que seus pais queriam” e que após o fim da adolescência, aos 19 anos, sem saber realmente o que faria, “sentia muita agonia, angústia”. Até que um velhinho, vizinho de seu apartamento, lhe confessou certa vez que apesar de muito bem sucedido financeiramente, julgava-se um fracassado por não ter aproveitado a vida como gostaria. “Eu não queria chegar na idade dele, olhar para trás e dizer ‘que merda, não deu tempo de fazer nada’. Aquela conversa não foi por acaso”.

“Saí olhando para o mundo, aprendendo igual a um menino, de olho arregalado”. Enquanto Eduardo narrava sua trajetória, Clara, sua companheira, se desdobrava para atender aos interessados nas obras expostas ao lado da Celestina. Ravi, o filho, e Roque, o cachorro, acompanhavam as vendas. São ilustrações com frases, textos, desenhos próprios e até retratos de personalidades como Gandhi, Bob Marley, Einstein, Raul Seixas, Paulo Freire, Cora Coralina, Bakunin. “Os grandes são 50 reais; os pequenos 10, só escrito. Com desenho é 15”.

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É desse dinheiro que Eduardo, Clara e seus dois filhos sobrevivem nas viagens entre os locais de palestra, a bordo da Celestina, a “engolidora de estradas”. E é na kombi que há dois anos a família carrega os desenhos, roupas, instrumentos e, volta e meia, até dorme dentro. “Eu achei ela lá em São Gonçalo, num galpão. Tava dez anos parada.” Às vezes, inclusive, ela dá algum problema no caminho. O filósofo da rua tem compartilhado em seu blog, Observar e Absorver, suas aventuras pelo Brasil com a perua. “Me dá o prazer de estar conduzindo e ao mesmo tempo carregar mercadoria reflexiva. Encontrar pessoas que pensam, malucos que nem eu”. Ele começou a escrever na rede após observar o interesse que suas palavras despertavam nas pessoas. Uma ativista presenteou Eduardo, e ainda o ensinou a utilizar o computador, ferramenta que impulsionou sua visibilidade e facilitou a comunicação com as pessoas que conheceu pelo país, ou que assistiram a seus vídeos.

“E nessa sociedade competitiva, a minha derrota é a minha vitória.”

Ao abrirem o Bate-papo para a interação com o público, logo perguntaram ao palestrante sobre a conjuntura política brasileira atual. Alguns gritos isolados de ‘Fora Temer!’, vindos da plateia, introduziram a longa resposta de Eduardo. “Enquanto houver essa estrutura partidária no país não vai ter democracia. A estrutura política, jurídica, legislativa não permite que exista uma real democracia.” Os estudantes, buscando respostas mais exatas, prosseguiram as indagações sobre política. Uma menina o questionou: “como conseguir fazer um protesto que realmente atingisse a verdadeira elite que controla o país?” Marinho desconversou. Disse não ligar para essa elite. Que são “inseguros, frágeis. Não fazem a própria comida, não tiram o próprio lixo, mal sabem trocar um pneu. Dependem de segurança, dependem de empregado, não cuidam nem de jardim.” Para ele, o que realmente importa é a conscientização dos mais pobres. “A gente tem que liderar a si mesmo e despertar a liderança em cada indivíduo. Aonde ninguém obedece não há quem consiga mandar.”

Houve ainda outras perguntas. Houve também a promessa de uma segunda parte do sarau, que não se consolidou. Como Eduardo se empolgou nas respostas, já passavam das 22h e o vento gelado não dava tréguas, o organizador voltou ao palco para anunciar que eles iriam então para algum bar na região da Carvoeira, prosseguir com a aula aberta. A retribuição do público por meio de aplausos foi intensa. Antes de ligar a Celestina, o filósofo das ruas ainda atendeu a pedidos de fotos e indagações sobre os quadros e os pensamentos expostos naquela noite.

Hoje, além das palestras pelo Brasil, Eduardo Marinho concede entrevistas a canais de conteúdo audiovisual na internet. Um de seus quadros, que retrata um homem com a cabeça de fósforo, em chamas, inspirou a capa do álbum da banda carioca Braza, lançado em março deste ano, que inclusive possui uma fala de Eduardo como interlúdio do disco. Mesmo com toda notoriedade conquistada através da rede, Marinho ainda prefere a rua como seu ambiente democrático preferido.

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A caminho de Curitibanos, em Rancho Queimado, na serra catarinense, Celestina travou. Foi outro problema no motor, na subida da serra, que fez Eduardo e sua família retrocederem e ficarem pela cidade até uma mecânica abrir. O imprevisto causou o cancelamento da palestra que aconteceria em Curitibanos. Os encontros nas cidades gaúchas de Guaporé, Cachoeirinha e Porto Alegre foram cumpridos de ônibus. Os organizadores ajudaram nas despesas da ida, porém a volta rumo ao Rio de Janeiro foi custeada com as vendas do material produzido por Eduardo e sua família. Ainda em São Paulo, na Rodovia Régis Bittencourt, o motor de Celestisna que já vinha desperdiçando óleo bateu seco, os deixando a pé na cidade de Juquiti. “Uma pena. Mas não se pode ter apego às coisas, elas vêm e vão. Quando fazemos tudo o que podemos e ainda assim não dá certo, é preciso abrir mão, largar e seguir adiante. Temos tudo o que precisamos, respiramos saudáveis, pelo menos ainda, e diante das perdas é preciso não piorar as coisas com sentimentos depressivos”, escreveu Eduardo em seu blog. Assim que possível, com ou sem Celestina, a trupe seguirá viagem, observando e absorvendo.

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