Cidade que vê (mas não enxerga) seus problemas

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Deficientes visuais enfrentam dificuldades em acessibilidade e mobilidade urbana em Florianópolis

 – Felipe Sales –

“Aqui nessa região o problema maior é toda a falta de estrutura de calçadas, né? Se tu fores olhar pela cidade vais encontrar muitas delas irregulares, estreitas, esburacadas, poste em cima de piso tátil, desníveis. Floripa dá o maior exemplo de como não devem ser feitas as calçadas”. Essa opinião é do gerente financeiro Luis Rigotti. Ele nasceu com somente 5% de visão, hoje vê apenas alguns vultos com o olho esquerdo. Há 36 anos mora em Florianópolis, e para o Censo do IBGE de 2010 ele é um dos 400 deficientes visuais residentes na cidade.

Em setembro se comemora o Dia Nacional da Luta das Pessoas com deficiência – dia 21 – e em outubro celebra-se o Dia Mundial da Visão – 13 de outubro. Enquanto isso, a capital com o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (PNUD), mantém os olhos fechados para uma reclamação recorrente de quem tem baixa ou nenhuma visão: A promoção de acessibilidade e mobilidade urbana.

As queixas de Luis procedem e não estão sozinhas. Uma pesquisa feita em março pelo Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF) apontou que 69% da população da cidade considera as calçadas ruins ou muito ruins. Isso desrespeita a legislação do próprio município. Em 2008, o prefeito em exercício Rubens Carlos Pereira Filho assinou a lei nº 7801. Ela estabelece que a Prefeitura é responsável pela fiscalização das calçadas para que todas tenham pisos táteis – aqueles pisos elevados que ajudam deficientes visuais a se guiarem – e que tenham sempre rampas acessíveis ou elevação para o acesso às vias.

As ruas

Pela legislação municipal, a colocação de calçadas é uma responsabilidade dos proprietários dos terrenos, mas o fato de em alguns lugares de Florianópolis nem existirem calçadas passa a impressão de que sua colocação não respeita regras, o que está errado. Além de terem que levar pisos táteis, há normas de colocação desses pisos nelas. Existem dois modelos, o piso guia ou direcional, aquele com faixas com distância exata entre elas que indica o sentido da calçada e o piso alerta, com bolinhas com distância e inclinação exatas que indicam mudança no sentido ou fim da calçada.

As distâncias entre as faixas e as bolinhas são definidas através de uma regulamentação da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). A regra NBR: 9050 é a que dá as diretrizes para acessibilidade em prédios, espaços urbanos e mobiliários. Ela passou por um período de revisão que durou três anos, foi relançada para consulta pública este mês e em outubro ela passa a ser válida.

Em Florianópolis, a Secretaria de Obras da Prefeitura Municipal é responsável pela manutenção de vias urbanas e em nota informou que “Há novos projetos de intervenções em pavimentações de vias e calçadas, todos já estão sendo atendidos no quesito de acessibilidade de acordo com a norma da ABNT”. Porém, as calçadas que já existem são fiscalizadas pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (SMDU). O secretário responsável pela pasta, Marcelo Martins da Rosa afirma que por mês são emitidas cerca de 400 notificações para proprietários de terrenos com calçadas irregulares. “O Ministério Público trabalha em conjunto com a gente. Com essa parceria os moradores notificados realizam as alterações sem grandes problemas, sem necessidade de muitas multas”, diz o secretário.

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Adaptação

Uma alternativa de adaptação para a população de deficientes visuais em Florianópolis é a aula de vivência e mobilidade que a Associação Catarinense de Integração dos Cegos (ACIC) passou a oferecer este ano. Com a orientação do professor de mobilidade e orientação Igomar Zucchi, o Igor, deficientes visuais que procuram a instituição podem aprender ou recomeçar o processo de se deslocar e transitar por onde querem.

“O primeiro passo é fazer uma avaliação funcional da visão, dos outros sentidos, como está o tato, a percepção cinestésica, e a partir daí a gente monta um programa de atendimento de acordo com as necessidades de cada um”, conta Igor. As aulas começam na própria sede da ACIC, no bairro Saco Grande. Na sala de professor estão instalados os principais modelos de pisos táteis. Ali se trabalha a percepção de sentidos, se educa o tato, se transmite técnicas de uso de bengala e se ensina a convivência com os chamados guias videntes, pessoas que conduzem os deficientes.

A partir das intenções do aluno, o treinamento começa a expandir a área de abrangência. Igor avalia que ouvir o paciente é o melhor caminho: “Às vezes eu ensino uma pessoa a se deslocar pelas ruas mais movimentadas, mas ela só quer saber como se virar sozinha em casa”.

A gerente técnica da ACIC, Maristela Bianchi, teve o objetivo de apreender mais e foi uma das alunas de Igor em uma dinâmica feita no Terminal de Integração do Centro (TICEN). Maristela nasceu com albinismo e uma das implicações dessa doença congênita é a perda de visão. Desde criança ela enxerga apenas 10%. Para a aula ela usou venda e bengala – item que ela prefere não usar diariamente – e se deslocou do TICEN até a Praça XV.

“As condições das ruas do centro não estão nada boas. Não tem uma rampa entre o TICEN e a Paulo Fontes, então você nunca sabe se já chegou na rua ou se ainda está no local de espera”, relata Maristela. Outro ponto observado por ela na aula é a poluição sonora da região central. “Sem a visão você se guia muito escutando as coisas. No Centro é tudo muito confuso, o ambulante grita, o político passa com carro de som, e nem o semáforo sonoro você escuta”.

Transporte Público

Outra situação recorrente para quem tem deficiência visual é passar por algumas dificuldades ao usar o transporte público. Tanto os ônibus quanto os terminais de integração não possuem as condições necessárias para um transporte seguro. O professor de mobilidade Igor Zucchi ressalta a falta de um padrão para entrada e saída das plataformas de terminais. “Na plataforma A você entra pelo lado direito, já na plataforma ao lado a saída é pela direita, isso costuma provocar muitos incidentes”.

Quem já percebeu isso é a estudante universitária Tábata Duarte. Ela dá aulas de computação para cegos, e também é deficiente visual. Diariamente ela precisa sair do bairro Saco Grande – onde mora e trabalha – para se deslocar para o centro, onde estuda. “A gente acaba dependendo muito da ajuda dos outros, até porque sem isso a gente se perde com muita facilidade. Os ônibus, dependendo do horário que você pega, param em pontos diferentes do terminal. E para pegá-los no TICEN até tem um piso que te indica o ponto de embarque, mas é na beira da calçada e você tem que praticamente se arrastar para encontrá-los”, comenta.

Em junho deste ano a ACIC entrou com uma ação no Ministério Público Estadual que abriu um inquérito pedindo melhorias na acessibilidade da cidade. Foram notificados da decisão a Prefeitura Municipal, o Consórcio Fênix – que administra a concessão de ônibus na cidade – e a Cotisa – que administra os terminais urbanos.

Quem respondeu pela Prefeitura foi a Secretaria de Mobilidade Urbana. Em agosto, o secretário Vinicius Cofferri, o presidente da ACIC, Jairo da Silva e representantes do Consórcio Fênix e da empresa de tecnologia Wplex se reuniram para a criação de um aplicativo que vai auxiliar os deficientes visuais a se guiarem. “A ideia é desenvolver um programa que avise a pessoa em qual ponto ela está passando e emita um alerta quando ela chegar ao local desejado”, explica Vinicius.

A Cotisa não respondeu aos contatos da reportagem para falar sobre as medidas planejadas para melhorar a acessibilidade dos terminais. Já o Consorcio Fênix reiterou ao Blog do Quatro a função do aplicativo. Disse em nota que não vale a pena instalar em ônibus sinais sonoros que avisem por qual ponto se está passando, que o aplicativo cobre essa falta de aviso. Sobre o problema levantado por Tábata, de que os ônibus param sempre em locais diferentes do terminal, a empresa afirmou que isso acontece pela disponibilidade de vagas da plataforma e que pretendem encontrar uma solução em breve. “Buscaremos junto com a ACIC uma solução de sinalização em braile nas colunas de boxes de linhas”, disse a nota assinada em nome da empresa.

A ajuda

Durante o processo de apuração, a reportagem fez uma pergunta em comum para os entrevistados deficientes visuais: O que fazemos de errado ao tentar ajudar vocês no dia-a-dia? “Nos ouvindo e respeitando as nossas vontades”, disse Luis Rigotti. “É muito comum nós tomarmos alguns pontos da cidade como referência e paramos ali para esperar os amigos. É comum se paramos próximo ao fim de calçadas que as pessoas nos atravessem sem nem querermos. A gente agradece a preocupação, mas é melhor nos ouvirem antes”, conta.

Tábata Duarte também se incomoda em não ser ouvida por quem a ajuda e lembra também de algumas situações embaraçosas que já viveu. “Acontece muito das pessoas gritarem com a gente no meio da rua coisas do tipo “Cuidado! Tem um buraco na esquerda”. Além da situação vergonhosa de ter alguém gritando com você, tem a questão que a esquerda da pessoa é a minha direita. Se a pessoa não se dá conta disso ela me leva direto para o buraco”.

A opinião de Maristela Bianchi combina com a de seus colegas. “O segredo é perguntar para a gente para onde queremos ir. Nós vamos pegar no seu braço, porque assim percebemos quando você muda de direção, quando sobe ou desce um degrau. A gente fica muito feliz quando alguém se dispõe a nos ajudar dessa forma”.

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