Quadrinhos independentes

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Corwdfunding impulsiona a produção de quadrinhos independentes em Florianópolis

 – Tadeu Mattos de Souza –

Já pensou em todas aquelas estórias incríveis que criamos em nossas cabeças quando estamos no banho, na cama ou em uma aula chata? Agora, imagine quando a pessoa possui o talento para transformar essas ideias em realidade. O entusiasmo de sentar em frente ao computador e passar horas produzindo um livro ou HQ. No final ter um produto pronto e mandar com toda a esperança do mundo para uma grande editora e ter seu esforço publicado. Então se passam semanas, meses, até anos e nada daquele e-mail recompensador. Isso é mais comum do que acredita. Imagine quantos potenciais clássicos como Watchmen e Maus devem estar esquecidos e empoeirados dentro de gavetas das grandes editoras por terem muitas páginas ou pelo autor não ser conhecido.

Por isso, muitos escritores estão usando cada vez mais o recurso de crowdfunding para tornar suas obras realidade. Essa forma de financiamento se popularizou em 2009 com o surgimento do Kickstarter e, logo depois, veio ao Brasil com plataformas como o Catarse, Benfeitoria e o Queremos. O esquema funciona de uma maneira bem simples: O produtor apresenta uma ideia no site e estipula uma quantia necessária para ela se tornar realidade. Assim, pessoas que se interessaram podem doar uma quantia em troca de recompensas especiais feitas pelo criador do projeto como, por exemplo, o nome escrito nos agradecimentos ou então a participação em um evento.

A plataforma nacional mais popular atualmente é o Catarse. A empresa fornece dois tipos diferentes de financiamento: ‘’Tudo ou nada’’, em que o autor só receberá a quantia caso a meta financeira seja alcançada e o ‘’Flex’’ em que ele fica com o dinheiro independente da meta. Nos dois casos a empresa lucra, ficando com 13% das doações. Porém, alguns criadores conseguem ganhar um valor além da meta estipulada na campanha, conseguindo até gerar lucro.

Os personagens

Daqui de Florianópolis o autor Victor Caffagi está tentando financiar sua segunda obra por kickstarter intitulada ‘’ Já era’’. Sua primeira vez tentando se aventurar nesse financiamento foi com ‘’Apocalipse por favor’’, que chegou a passar 32% de sua meta original, R$ 15 mil, arrecadando R$ 19.754. Victor acredita que escolheu o crowdfunding ao invés das editoras por não ser um autor conhecido, o que torna extremamente difícil que uma se interesse em publicar e também pela natureza de suas obras, já que são extensas e tomam um grande tempo e dinheiro para serem feitas. ‘’O financiamento coletivo é uma garantia de que o tempo que estou gastando vai ter um retorno, um público garantido’’, afirma Caffagi.

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‘’Já era’’ conta a estória de Regina, uma publicitária que se cansa do cotidiano e vê a oportunidade de comprar um barco e navegar em busca da razão de sua existência. O enredo surgiu de uma forma bem espontânea. ‘’Eu namoro à distância e, muitas vezes, sou obrigado a recorrer ao telefone para me relacionar com a minha namorada. Numa dessas ocasiões, estava conversando a noite com ela e me pediu para contar uma estória de dormir. Da estória que eu contei resultou o “Já era”.

Também da região, a ilustradora Rebecca Acco é experiente no mercado já que lançou o título Muiraquitã e a fúria do Anhangá em 2014 pela editora Estronho, de Curitiba, com o roteiro de Alex Mir. Hoje ela tenta arrecadar dinheiro para ‘’HQ Eiji: Yakuza Origins’’, parte da iniciativa transmídia The Rotftather, planejada pelo G2E do Design da Universidade Federal de Santa Catarina. O projeto tem como meta R$ 11.500 e pretende ser lançado na  Comic Con Experience,  em dezembro, o FIQ ano que vem e outros eventos futuros de HQ, games, cultura pop.

Por incrível que pareça, mesmo antes de lançar, a  HQ de Rebecca já é planejada para concursos e premiações como HQMIX no Brasil e Angoulême na França. A estória conta a origem da Yakuza no universo do Rotfather no Japão do século XIX, no período forte de ocidentalização do país, começando com um drama de onde personagem do sapo saiu e terminando com sua ascensão e conquistas.

Dificuldades

Mas ter uma campanha bem sucedida não é uma tarefa fácil  no crowdfunding. Afinal, o autor precisa, antes de tudo, ser um bom marketeiro e ter muita paciência, como relatou Victor Cafaggi. ‘’Aprendi que um bom produto não basta. Para fazer uma boa campanha é preciso ter tudo em ordem, criar uma campanha bem feita, com vídeos instigantes, um orçamento conciso e ter vários contatos para fazer a campanha viralizar’’. Além disso, É importante ter recompensas interessantes. Uma grande parte do público vai se interessar pelos produtos oferecidos pelo autor e não apenas com a ideia de ajudar. Não pense em “brindes”, pense em produtos legais que o autor está vendendo.

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Entre nossa conversa, Rebeca Acco afirmou que crowdfunding é um meio extremamente trabalhoso. É um processo que leva meses, até um ano ou dois para planejar. Desde os vários orçamentos que precisam ser feitos para chegar numa meta ideal, até a gráfica que se pretende utilizar, os prazos e fazer todas as recompensas da campanha, verificar o frete de todos os pacotes das recompensas, fazer o marketing/divulgação da campanha e do produto além de cuidar da página do facebook relacionada ao projeto. No final, Rebeca ainda confessou algo importante. “Todo o processo é extremamente exaustivo, principalmente se é uma pessoa só executando o plano”.

Receba: planejamento necessário.

Receba: planejamento necessário.

A parte talvez mais complicada seja depois do financiamento, quando tem tudo pronto e impresso mas não sabe o que fazer. Cafaggi discutiu sobre sua experiência anterior e da falta que faz uma editora, já que ele ainda tem muitos exemplares do livro ainda estocados em sua casa sem ter tempo para fazer a distribuição. Pior que isso é ter  controle de onde as HQs estão e se venderam ou não. “No meu caso, acabo preferindo distribuir o livro em um número mínimo de lojas para conseguir ter um controle maior. Mas isso limita muito o alcance das vendas. Acabo vendendo o livro a conta-gotas’’, reclamou Victor.

A acessibilidade extrema também cria uma enorme competição. Com o fácil acesso a essas plataformas online de financiamento coletivo, muita gente está superlotando de projetos. Dessa forma faz com que somente alguns com maior apelo visual ou nomes famosos consigam atingir seus objetivos. Isso pode fazer com que os não bem sucedidos procurem mais as pequenas editoras para viabilizar seus trabalhos. Por outro lado, “também pode forçar os autores a bancarem do seu próprio bolso, levando em conta todas as desvantagens de uma editora’’, afirma Rebeca.

As editoras

Com a ascensão do crowdfunding começa a surgir a pergunta de como as editoras tradicionais se encaixam nisso. Bom, ainda é uma questão que levanta opiniões diferentes. Por Rebecca Acco, a participação das editoras nessa nova realidade é complicada.  “Acho muito difícil as editoras se adaptarem, pois as porcentagens  cobradas no contrato com o autor são para pagar a tiragem e os impostos que no país são altíssimos”. Mais um fator que é desanimador para elas é a pouca procura do brasileiro por títulos nacionais desconhecidos. Os consumidores acabam dando preferência a nomes mais famosos, correndo o risco de falir com essas editoras de nomes mais underground. Por isso, Victor acredita que estejam fortemente perdendo espaço. Inclusive “existem novas editoras nascendo, mas dando preferência para lançamento de títulos de fora, de artistas de sucesso já consolidados no mercado”.

Por outro lado, Victor Cafaggi diz que as editoras já estão adaptadas a isso e que as pequenas até se beneficiam com o crowdfunding para publicar trabalhos e adquirir direitos de obras bem sucedidas na plataforma. “O Crowdfunding acabou servindo para aquecer esse mercado editorial. Com ele, os trabalhos que nunca chamariam atenção de editoras tradicionais acabam sendo realizados e as editoras conseguem acesso a novas possibilidades e novos autores”. Victor também alega que o crowdfunding funciona como um ‘’termômetro’’ mostrando quais os tipos de projeto que dão certo na indústria.

Ajude

Hoje é possível ajudar dezenas de projetos incríveis tentando financiamento. Alguns exemplos são ‘’Esquadrão Amazônia’’ de Alan Yango, ‘’ São Paulo dos mortos’’ de Daniel Esteves, ‘’Além dos Trilhos’’ de Mika Takahashi e Pingado-Prés, ‘’665 a vizinha da Besta’’ de Thiago Holst e muitos outros, além dos projetos de Rebeca Acco e do Victor Cafaggi. O maior desejo dos autores é terem suas obras lidas. Mesmo que a pessoa não se interesse por quadrinhos e nas recompensas, só compartilhando nas redes sociais já está ajudando.

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