Pé na estrada

Raquel Reis mergulha em um rio da Chapada Diamantina, na Bahia, seu destino favorito.

Raquel Reis mergulha em um rio da Chapada Diamantina, na Bahia, seu destino favorito.

Jovens que decidiram cair na estrada e descobriram um novo modo viver

 – Oriana Bueno Hoeschl – 

Motivados pela vontade de conhecer novos lugares e estar em contato com novas pessoas, mais jovens têm abandonado as rotinas das grandes cidades e se jogado na estrada. Influenciados principalmente pela sensação de não pertencimento, um fenômeno cada vez mais visível na sociedade contemporânea e que tem como o maior símbolo o livro de Jack Kousak, On the road, esses jovens têm recorrido a um novo modo de conhecer o Brasil e outros países da América Latina, os mochilões. E eles aproveitam também para documentar tudo nas redes sociais.

Raquel Reis

Quando criança, o pai de Raquel a levou para conhecer várias partes do país de caminhão, dias que ela lembra com um misto de fascínio e orgulho. O contato que teve nesse tempo fez com que viajar se tornasse uma “parte de sua natureza”, como gosta de dizer. Raquel nunca mais parou de buscar novos destinos desde então.

Quando jovem, após seus pais se separarem, passou a viajar sozinha de ônibus, vendendo brigadeiros, trabalhando em hostels e restaurantes para financiar as aventuras. “Eu comprava passagem de ida, trabalhava, fazia a grana da passagem de volta, e junto a grana para me sustentar na viagem”.

Na Chapada Diamantina, ajudando na cozinha de um morador que a acolheu, conheceu Pâmela Marangoni, autora da página 100 frescura e 1000 destinos. A sintonia foi instantânea e logo começaram a trocar experiências que tiveram na estrada. “Ela me contou seus planos sobre como que ela viajava de carona sozinha. Tinha ido do Mato Grosso do Sul até lá. Na hora eu fiquei impressionada ‘nossa, meu pai fazia isso quando eu era criança’”. Incentivada por Pâmela, Raquel decidiu viajar de carona também. Ensinou a amiga a se manter vendendo brigadeiros e caíram na estrada juntas.

As caronas permitiram que pudesse conhecer lugares mais distantes, antes limitados pelo preço da passagem. Chegaram a viajar com nada mais que 20 reais no bolso e uma mochila cheia de comida. “Com isso fui crescendo, crescendo, e quando eu vi estava na Bolívia. Daqui a pouco estava no Uruguai, na Argentina. No Paraguai! conheci o ‘Brasilzão’ também”, conta Raquel.

Logo a parceria teve uma pausa e as amigas seguiram destinos diferentes. Pâmela foi de bicicleta ao México e retornou para Salvador para terminar sua graduação em Farmácia. A partir dali, as caronas de Raquel seriam mais solitárias. Apreensiva no começo, logo se readaptou e, hoje, já não viaja de outra maneira.

Quando perguntam se ela não tem medo, sua resposta é um sonoro sim. “A gente tem medo, e aí, faz o quê? São tantos medos. Se manter em um quadrado e ver o mundo passar é fácil. Viver não é fácil. Tenho medo de morar em Salvador, de andar na rua a noite, tenho muito medo de pegar um ônibus e ser assaltada”, argumenta Raquel, que viaja há cinco anos assim.

“As pessoas têm uma ideia de que viajar é perigoso”. Estar na estrada requer cuidados, ela reconhece, mas nada além daqueles necessários do dia a dia. A única situação complicada pela qual Raquel passou em seus anos de estrada foi quando um homem de 65 anos tentou assediá-la durante uma carona. “Apesar disso nunca passei por nenhum momento em que eu pensasse em desistir.”

Viajar fez Raquel ter um contato diferente com as pessoas. Conheceu histórias que a fascinaram e a fizeram sentir gratidão pela vida que escolheu levar. Acreditar na humanidade, na bondade das pessoas sempre foi sua principal motivação, principalmente pelo apoio que sempre recebeu dos desconhecidos. “Eu consigo acreditar em uma sociedade em que eu, mulher, vou para a estrada, vou ser acolhida. E usando só esse polegar vou conseguir chegar aonde eu quero.”

“Siga sua Natureza”, lema desde criança, que inspirou Raquel a criar uma página com mesmo nome no Facebook, para compartilhar suas histórias e interagir com pessoas de todos os cantos. Para ela, não existem regras na hora de se jogar no mundo. É da natureza fazer o que for vontade, seja ficar ou ir.

Deitado sobre uma rocha, Edu Bah admira a paisagem montanhosa do Ushuaia.

Deitado sobre uma rocha, Edu Bah admira a paisagem montanhosa do Ushuaia.

Edu Bah

“Do mundo”. É assim que se descreve Edu Bah, de 28 anos, que resolveu há pouco tempo se aventurar pelo país pedindo caronas. Edu é uma daquelas pessoas que muitos chamam de doido. Vão até a beira da estrada, estendem o dedão e esperam que um carro ou caminhão o leve para algum destino desconhecido.

Seu fascínio pelo mundo começou cedo. Quando tinha entre cinco e seis anos, assistiu a um documentário sobre a Cordilheira dos Andes e a cidade mais ao sul do mundo, Ushuaia. “Como a mente de criança é ouro, imaginava as mais surrealistas histórias e imagens de como eu ia chegar no fim do mundo, como era viver por aquelas montanhas, neve, distâncias e, uau, só de pensar fico arrepiado”.

Aos 11 anos, ele já tinha decorado as capitais de todos os países das Américas, Europa ocidental e “meia dúzia de outros por aí”. Adorava ficar babando com nomes dos lugares, observar as fronteiras entre os países e tentar entender as mudanças que aconteciam política e fisicamente no mundo. Viajava nos mapas fluviais, hidrográficos, de relevo, de clima.

Mas foi só aos 19, quando ganhou de seus amigos o livro On the road, de Jack Kousack, que Edu levou o último empurrão que precisava para seguir seu destino de mochileiro. Poucos meses depois, preso a um trabalho que não gostava e não o remunerava bem, pegou sua moto e foi para a estrada, sem sequer ter um destino. “Saí rodando, fiz mais de 900 km num dia. Cansei, vi, parei, conversei, admirei e algo mais uma vez atiçou minha inquietude”.

A partir dali, nunca mais conseguiu olhar para Porto Alegre – cidade onde morava – com os mesmos olhos. Edu se sentia “um pino redondo no buraco quadrado”. Ele estava diferente, não se encaixava mais na vida que tinha antes. A paixão que surgiu o levou a percorrer milhares de quilômetros nos anos que seguiram. “Eu precisava dar à vida o sentido que eu queria”.

Inspirado no livro que havia ganhado, voltou para a estrada. Mas de um jeito diferente. A trama, de 1950 e inspiração para gerações de aventureiros desde quando foi lançado, conta a história de dois jovens que cruzam os Estados Unidos pedindo caronas. E foi justamente a liberdade vivida pelos personagens que fez Edu perceber o tipo de viagem que gostaria de fazer.

“Quando parou o primeiro caminhão da minha vida a poeira levantou. As chateações e o sol cansativo de um verão mormacento já não eram mais um problema e, naqueles milésimos de segundo, defini algo importante na minha humilde existência crua: ‘Caramba, é isso que eu quero pra minha vida!’”

Uma relação diferente foi criada com cada lugar onde esteve. Os que marcaram? Incontáveis, não saberia dizer. Os países não foram muitos. Além do Brasil, apenas os vizinhos Paraguai, Uruguai, Argentina e Chile compõem a lista. Em termos de cidades, nem sabe mais quantas foram, pois parou de contar no número 527. Hoje, guarda seus momentos favoritos escritos em um diário.

“Observei em silêncio a imensidão chilena a perder de vista, desmaiei, expandi corpo, entrei na beira de um rio gelado às 23 horas quando o sol ainda dava as caras no perímetro Antártico. Fui mais um no calçadão da Paulista, senti-me contagiado pela energia de Buenos Aires, e perdido nos campos uruguaios, uma nano-poeirinha em Foz do Iguaçu e privilegiado por ter aprendido que ir, vir, lutar, reclamar e fazer acontecer é um direito”.

Apesar dos momentos inesquecíveis, viajar está longe de ser uma felicidade constante. Edu também teve sua porção de frustrações, desentendimentos, desconfortos e até medos nessa trajetória. Já esbravejou de raiva na beira da estrada, ficou sem destino, dormiu em locais desagradáveis e pegou caronas que o assustaram.

Viajar fez Edu crescer, se descobrir e descobrir o mundo. O fez perceber que fronteiras eram apenas uma construção humana, e que pessoas são apenas pessoas, não importa onde estejam e a língua que falam. “Todo mundo é do mundo, embora eu tenha um registro de nascimento pra dizer por onde posso ou não posso entrar, onde votar e onde devo ser enterrado”.

Além de ter despertado sua paixão pela aventura, o livro On the road também o incentivou a escrever. Edu criou um blog, o Diários de Carona, onde conta sobre suas experiências, os lugares que visitou e as pessoas que conheceu nesses últimos anos. Dá conselhos para quem já está nessa vida de caroneiro, e também para os que sonham com a primeira vez na estrada.

Mas garante: “O melhor guia dos viajantes é o próprio instinto”.

Edu Bah caminha sobre o tilho da histórica ferrovia do trigo, no Rio Grande do Sul.

Edu Bah caminha sobre o tilho da histórica ferrovia do trigo, no Rio Grande do Sul.

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