Tecnologia e inovação: onde está o retorno dos investimentos?

Nanovetores/Divulgação

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Questionamentos sobre bem-estar urbano conflitam com fama de mercado perfeito em Florianópolis

 – Carolina Vaisz –

Praias paradisíacas, história e cultura ricas, contato com a natureza e muito agito. Florianópolis atrai olhares pelo potencial turístico e características naturais. Mas não para por aí. A popularidade também está relacionada a alguns rankings que trazem a capital como um dos melhores locais para investir no mercado tecnológico e para morar, em função de um alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Mesmo recebendo incentivos governamentais e sendo um celeiro de iniciativas de alto potencial científico, o retorno dos investimentos não é claro.

Apesar de apresentar o IDH elevado, a qualidade de vida e o bem estar dos moradores da cidade não estão no topo das pesquisas. Fatores como saneamento, habitação e mobilidade trazem questionamentos sobre o retorno e a aplicação de investimentos na cidade. O Observatório das Metrópoles, instituto de ciência coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) divulgou um levantamento do Índice de Bem-estar Urbano (IBEU) dos municípios brasileiros. O resultado levou em conta a análise de cinco fatores: condições ambientais e habitacionais, serviços coletivos, mobilidade urbana e infraestrutura. Florianópolis não está no ranking entre as 100 melhores. Entre as capitais, aparece apenas em nono, ficando atrás de Vitória, Goiânia, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre, Campo Grande, Aracaju e Rio de Janeiro.

Investimentos e iniciativas

O polo tecnológico da Região Metropolitana de Florianópolis é composto por mais de 600 empresas de pequeno e médio porte, em sua maioria de softwares, mas apresenta altos índices no âmbito de equipamentos e hardwares. O destaque no ramo se relaciona com a existência de incubadoras como a MIDI e a CELTA, consideradas pela Associação Nacional de Parques e Incubadoras (Anprotec) como as melhores do Brasil, além dos parques Alpha e Sapiens Parque, que reúnem o potencial produtivo em multinacionais. Enquanto em nível nacional os índices estão mostrando uma crise instaurada no sistema de mercado, o setor de TIC de Santa Catarina cresceu 15% no ano passado, segundo a Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate)

O crescimento do setor está associado ao investimento governamental em ideias que visem seguir a tendência do mercado, buscar campos internacionais, qualificar profissionais e ampliar ainda mais o campo tecnológico. Para isso, em 2011 foi implementado a lei municipal que dispõe sobre sistemas, mecanismos e incentivos à atividade tecnológica e inovativa, visando o desenvolvimento sustentável da cidade. Com verba destinada a projetos que sigam essas premissas, a lei impulsionou a criação de novas empresas na região.

Retorno dos Investimentos

Ainda que os dados da indústria do conhecimento científico em Florianópolis mostre um mercado favorável, o retorno do investimento feito não é visto em formas de benefícios para o município. As empresas estão ganhando projeção internacional e dedicando a produção de conhecimento científico para ações externas. Além do Imposto Sobre Serviço, que tem a maior arrecadação do município vindo da estrutura, há um déficit de aplicação tecnológica para o desenvolvimento de Florianópolis.

Segundo a Fundação Certi, organização de pesquisa e serviços tecnológicos no Brasil, para cada real que o governo investe, R$3,50 retornam após a consolidação de um projeto em parques tecnológicos. Mas o direcionamento dessa verba não é claro em Florianópolis. O diretor geral da Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e desenvolvimento, Marcelo José de Melo, admitiu que o órgão não tem os dados de valores investidos e retornados em inovação. “Esses dados ficam com a Secretaria da Fazenda. Já estamos solicitando para que até o final do ano tenhamos isso para apresentar no relatório da gestão”, explicou.

Conforme consta na Lei da Inovação, o objetivo do programa é estabelecer “medidas de incentivo às atividades tecnológicas e de inovação realizadas pelas organizações e cidadãos estabelecidos ou domiciliados no Município de Florianópolis, visando promover o desenvolvimento econômico, social e ambiental e a melhoria dos serviços públicos municipais de forma específica, nos termos do artigo 132, da Lei Orgânica do Município de Florianópolis.”

A Lei funciona como uma espécie de “Lei Rouanet Municipal” voltada à inovação. No texto não há artigos que proponham atividade de retorno sobre o investimento feito nas empresas participantes do projeto. Melo expressa que o retorno está centrado na divulgação de que Florianópolis tem o ambiente propício para o crescimento das empresas, atraindo as organizações para cá. “No fim o município ganha com o imposto gerado com essas empresas aqui”, apontou o diretor. Apesar de defender o desenvolvimento sustentável da cidade, poucas empresas apresentam projetos de valorização local.

Junto com a lei de incentivo, em 2011 foi criada a marca Florianópolis Capital da Inovação. Essa ideia surgiu para fomentar o campo com o objetivo de destacar as iniciativas vindas da tecno base da cidade. Mesmo que os índices apontem para um município cada vez mais inovador, o título concedido é, na verdade, uma estratégia para atrair olhares para a região. A definição faz parte do plano de trabalho da Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento.

Fortalecendo os atores estratégicos, as ações do plano de inovação buscam atrair talentos e capacitá-los para garantir a permanência dos empreendimentos na cidade. A questão que ainda fica em aberto é em que momento esse investimento vai retornar para a Florianópolis em forma de medidas que ampliem a qualidade de vida e solucionem problemas estruturais básicos como saneamento, infraestrutura e mobilidade urbana.

Crescimento do setor impressiona em meio a crise

Em 2015 o ranking da Endeavor, organização de apoio a empreendedores do meio, mostrou que Florianópolis é o segundo município mais empreendedor do Brasil, perdendo apenas para São Paulo. Um estudo realizado pela revista Exame em parceria com a Delloite, organização de assessoria contábil, apontou que doze entre as cem empresas de pequeno e médio porte que mais crescem no Brasil são catarinenses.  O levantamento objetiva entender a questão “Como crescer em meio a um momento tão desafiador como o que vivemos recentemente na economia brasileira?” e encontrar os fatores determinantes do crescimento em meio a crise.  O período de análise foi de junho a julho de 2016.

A Nanovetores Tecnologia, situada no Sapiens Parque, é a segunda colocada no ranking. A entidade do setor de cosméticos tem nove anos no mercado e é precursora em nanotecnologia sustentável. A corporação produz ativos imperceptíveis ao olho humano encapsulados, o que prolonga a duração de produtos como cremes, loções, perfumes, curativos e tecidos. As nanopartículas, como são chamadas, são biodegradáveis e têm sua ação ativada através de gatilhos como a água, o calor e fricção. A multinacional está presente em mais de 30 países e tem como projeção de faturamento para 2016 R$20 milhões. O presidente da corporação, Ricardo Henrique Ramos, aponta que Florianópolis é o local ideal para o desenvolvimento da Nanovetores. Segundo ele, a estrutura, a mão de obra e os incentivos de inovação aliados ao fomento de startups em parcerias com universidades faz da cidade um exemplo de potencial em negócios.

Tripla-Hélice

A propulsão desse mercado para o destaque econômico se dá em função da integração chamada de tripla hélice: cooperação entre empresas, governo e universidades com o objetivo de produzir conhecimento e projetos que levem ao desenvolvimento socioeconômico. A atuação em conjunto desses três atores é fortalecida através de parques tecnológicos, que geralmente estão próximos às universidades ou têm parcerias de laboratórios integrados de pesquisa intelectual. As instituições sediadas nesses ambientes são de setores como saúde, energia, informação e combustível, o que viabiliza a integração entre as partes.

A oportunidade de estar em uma multinacional, aplicar na prática os estudos realizados no ensino técnico e trabalhar a cinco minutos de casa fez Samuel Borges, 20, ingressar no corpo de funcionários da Nanovetores. Ele entrou por indicação de um colega e mesmo sendo estagiário já tem perspectivas dentro da organização. “Estar em uma multinacional, aprendendo a trabalhar com tecnologia de ponta é muito bom. Acho que isso é a minha oportunidade. Às vezes as pessoas pensam que para crescer tem que viajar, estar longe, mas há cinco minutos de casa eu estou no trabalho, não podia ser melhor”, expressa o jovem.

Assim como Samuel, muitos outros jovens encontram oportunidade no mercado catarinense através da profissionalização encontrada na educação do Estado. Florianópolis atrai estudantes de todo o Brasil em busca de qualificação profissional nas áreas tecnológicas, por ter se tornado referência em fornecer preparo e suporte para a formação de carreiras. O ensino e a pesquisa da região estão centrados na UFSC, que oferece cursos com nota máxima no MEC nas áreas de Engenharias, Ciências da Computação e Sistemas da Informação.  Henrique Tormenta, coordenador da Endeavor, explica que Santa Catarina tem média de um pesquisador para cada 28 corporações, o dobro da média nacional, e que a proximidade entre parques tecnológicos, ambiente educacional, companhias e incubadoras resulta em cooperação e integração.

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