Pescar na ponte. Pode?

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 – Mateus Mello –

No mínimo vinte caranguejinhos cinzas-escuro tentavam subir pelas paredes nada aderentes do recipiente. Outros dois, por motivos desconhecidos aos colegas de cárcere, já estavam mortos. A envergadura do espécime escolhido não chegava a seis centímetros. Ele andava de um lado para o outro no meio da multidão desorganizada que fora levada para passear dentro do pote feito com o fundo de um galão, e pareceu não perceber quando foi suspenso entre os grossos dedos do pescador. O anzol fez “craque” ao atravessar seu corpo, mas suas patas ainda se mexiam quando foi arremessado, da passarela da ponte Pedro Ivo Campos, ao mar.

Essa era apenas uma das quatro linhas de Cláudio*, um cruzeirense de 38 anos, nascido em Uberlândia, Minas Gerais. O cabelo raspado nos lados — tendência desde 2015 — contrastava com a vestimenta típica de pescador que usava naquela noite de terça-feira: blusão de lã escuro, jeans cinza surrado e um par de botas amarelo-mostarda clareadas pelo sol. Ainda desconfiado, soltava confirmações monossilábicas e alguns sorrisos quando seu companheiro de empreitada pedia confirmações as histórias contadas.

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O sotaque carregado de Wellington*, gremista de 46 anos, não deixava nenhuma dúvida sobre sua origem portoalegrense — mesmo sendo natural de São Leopoldo. Branco, com uma farta barba salpicada de cinza e o cabelo raspado escondido no boné, esse sim, se vestia como os sujeitos que vemos em canais de pesca esportiva: gola polo listrada, calça esporte e tênis com amortecedor de impactos. Ele administrava outras três linhas, enfileiras à esquerda das linhas do amigo.

Os dois são adeptos da linha de mão, o estilo de pesca que menos pesa no bolso. Anzol, nylon, os pesos de chumbo e o carretel de madeira, juntos, mal chegam a R$150,00. As iscas podem encarecer o método; as artificiais variam entre três centavos (valor da unidade em embalagens promocionais anunciadas em sites de venda pela internet) e 50 reais; um camarão custa R$ 0,60 e um caranguejo, tempo, pois precisam ser capturados nas pedras que contornam as baias norte e sul — pedaços de peixe e lula também são muito usados. Cada isca atrai determinado tipo de peixe, logo, o pescador deve ter em mente qual espécie pretende fisgar, explica Wellington escorado no parapeito.

Atrás dele, nas paredes da passarela, grafiteiros conhecidos na cidade, como Rodrigo Rizo, Rock Rick e Bug, deixaram suas marcas. Mas é um bandoleiro mexicano de bigodão sem assinatura que guarda o local onde a dupla costuma pescar. O desenho é mais uma coincidência, já que as principais demarcações são os pilares de sustentação que dividem a ponte em “vãos”: são três a leste (lado da ilha) quatro a oeste (lado do continente) e o canal central, por onde passam as embarcações. É entre o segundo e terceiro vão, no sentido ilha-continente, que gremista e cruzeirense se encontram uma ou duas vezes por semana. Isso porque Wellington não tem todas as noites livres, mas “esse aí vem pra cá todos dias”, brinca o gaúcho, indicando o mineiro com um gesto de cabeça.

Todos os dias é exagero, mesmo assim são poucas as noites em que Cláudio não tenta a sorte por ali. É que ele trabalha como amolador de facas e tesouras nos, arredores da praça XV. Conta que leva o equipamento em uma mochila que fica escondida até dar umas 16 ou 17 horas, horário em que desmonta a barraquinha e atravessa os cinco quilômetros que separam o ponto de trabalho de seu happy hour. Ali, fica até alguns minutos para a meia-noite, horário limite para quem precisa embarcar no último ônibus que sai do Ticen rumo ao Saco dos Limões, bairro onde mora.

Prestes a completar dez anos de ilha — e oito de pescaria na ponte —, Cláudio ainda enfrenta as desconfianças da patroa. Ela e as esposas da maioria dos pescadores da ponte não acham possível que alguém possa ficar quase cinco horas parado no mesmo lugar esperando a “tábua bater” (para quem está pescando com linha de mão, o som que faz o carretel quando cai é sinal de peixe pesado preso no anzol).

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O pior é que cinco horas não é nada. Alguns sujeitos chegam ali sexta-feira pelas 22 e fica até as sete ou oito da manhã. E justamente pelos peixes parecerem mais espertos em certos dias é que a pesca ali é normalmente praticada em dupla. “Não é só paciência, é preciso técnica”, destaca Wellington, “pelo vento já tem como saber o que vai dar”, mas assume: “Às vezes tu sabe que não vai dar nada e vem só pelo papo”. Tem gente que gosta de se reunir para tomar umas, jogar conversa fora e jogar futebol, eles gostam de se reunir para tomar umas e jogar conversa fora enquanto esperam a tábua bat…

Taque — pausa na conversa. A primeira coisa a fazer é impedir que a linha continuasse se soltando e, claro, recuperar os metros perdidos. Cláudio puxou o fio até trazer o rival à superfície e ao se inclinar no parapeito para observar, deu a sentença: “tá boiado”.

Nesse momento duas ou três cabeças o cercavam — na calmaria em que o esporte é praticado é fácil identificar, mesmo de longe, quando alguém fisga algo. Eles sabem que não devem se meter, atrapalhar, por isso o máximo que fazem perguntar é “Pegou? Pegou?” conhecendo a reposta.

O peixe é pesado. A linha de 120 mm não vai aguentar as sacudidas que ele der. “O jereré”, pede Cláudio, com a mesma autoridade de um médico em relação aos seus assistentes durante uma cirurgia de risco. Wellington corre em direção aos equipamentos e volta como jereré (espécie de coador gigante usado para suspender peixes de médio porte).

Tentam descer o instrumento até o nível do mar, mas a corda do instrumento não é grande o suficiente. Um dos espectadores corre até os seus matérias trazendo o próprio jereré. Ao invés usarem o material do vizinho, preferem atar os dois pelas pontas, a fim de aumentar o alcance do próprio instrumento.

Contrariando a individualidade esperada, o sucesso daquela noite dependia do trabalho em equipe. Lutando contra o vendo, Wellington tentava estabilizar o jereré para que Cláudio possa jogar a presa ali dentro. Para piorar, o peixe “Tem uns quatro quilos” e não tá afim de ir para a geladeira de ninguém — se debate desesperado, quer sair com vida, mesmo que para isso rasgue o beiço ou, para o horror de seus familiares, seja obrigado a nadar por aí com um piercing novo.

Quase dez minutos — contando desde o momento em que a madeira bateu —  foram necessários para içar o peixe até a passarela: um burriquete de 3,5 kg. Orgulhoso, Cláudio tira o do bolso o smartphone dourado, alcança-o ao amigo e pede que tire uma foto sua segurando o prêmio, para compartilhar no grupo de Whatsapp dos pescadores da ponte.

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O peixe foi largado próximo a parede grafitada. Ciclistas e pescadores que chegavam ou partiam faziam questão de parar e observar com calma o animal sufocado. Cláudio dava uns goles em sua garrafinha de aguardente enquanto preparava uma linha para reposição. Disse que aquele ali era pequeno ainda, “Tinha que ver o que pegaram semana passada”, pedindo testemunho ao parceiro. Depois de concordar com a cabeça e admirar o mar por um tempo, como que concluindo as histórias daquela noite, Wellington solta: “Pensa o lugar mais democrático de Floripa. É essa ponte. Às vezes tu pega juiz pescando ao lado de bandido”.

* Os nomes são fictícios para preservar a identidade das fontes.

Quem são os pescadores da ponte?

Não existe um perfil onde encaixar os homens que praticam a pesca esportiva nas pontes que ligam a capital catarinense ao resto do país. Naquela mesma noite, os que atravessassem a passarela da Pedro Ivo no sentido ilha-continente entre 21 horas e meia-noite encontrariam outros vinte pescadores.

Quase metade desse número era composto por gaúchos, paranaenses, e paulistas. Alguns destes sequer moram na região, como os curitibanos Jorge, de 21 anos, e seu parceiro Carlos, de 37. Os dois chegaram na cidade pela tarde, para trabalhar por um mês no setor da construção civil. Estavam ali desde às 19 horas e não tinham pegado nada, mas garantiram que retornariam ao local durante a estadia deles na ilha.

Os catarinenses estavam divididos florianopolitanos, palhocenses e josefenses, que eram a maioria. Entre eles, o seu Miguel, que dos 58 anos de idade, pesca na região a pelo menos 34 — ele garante que pescava na Hercílio Luz antes dela ser interditada em janeiro de 1982.

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