Droga é pra otário

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Droga é pra otário: o mistério das ruas de Florianópolis

 – Matheus Vieira e Eduarda Hillebrandt – 

Nos últimos dois anos, os muros da Grande Florianópolis vêm sendo marcados pelo sorriso dúbio no rosto amarelo de olhos avermelhados, e a provocação “droga é pra otário” poucos centímetros acima. Essa intervenção urbana nada tem a ver com os movimentos de grafite e pichação das cidades, sendo inclusive uma antagonista das cenas hip-hop. A figura é, na verdade, um grande mistério que assola tanto os artistas de rua quanto o cidadão comum. As interpretações divergem em dois polos opostos: Afinal, é ironia ou é pra valer? E, para alguns, o mais relevante: quem está por trás disso?

Buscando desvendar esse mistério, nós realizamos um total de 25 entrevistas e saímos por um incontável número de bairros de São José e Florianópolis contabilizando 58 aparições desse personagem —incluindo a variação na qual o rosto é verde e a mensagem muda para “maconha retarda”. Mas, apesar dos esforços, não encontramos respostas. Revelamos algo igualmente relevante:os olhares sobre a obra. Capturamos a visão da cidade sobre uma de suas crias.

 

Olhares

Os sete jovens descamisados que surfavam no asfalto da pista de skate frente ao Shopping Iguatemi discordavam muito entre si quanto ao teor do desenho. Entretanto, ecoavam em uma coisa: achavam o rolê muito engraçado. Pra sacanear, os meninos, que tinham entre 13 e 17 anos, responderam à nossa abordagem através de um diálogo mergulhado nas entranhas de algum outro universo de gírias — suas falas nos eram tão compreensíveis quanto códigos de computação.

Passada a brincadeira, soltaram a voz e então surgiram as suposições. O mais novo da roda, um garoto de 13 anos cuja sombra sob a narina chamava de bigode, disse que “quem faz isso sabe o que que é? um otário!” e disso, ninguém discordou. A conversa foi efervescente a ponto de se tornar impossível distinguir quem falava o quê. As melhores suposições surgiram quando os dois mais velhos dali começaram a discutir sobre a possibilidade de ser alguma igreja. No fim, todos chegaram às mesmas conclusões: não havia o que concluir, nós deveríamos voltar de noite, quando os grafiteiros se encontravam e, quem sabe, procurar a Bola de Neve Church.

Voltamos. Porém, os skatistas noturnos não tinham nada de artista de rua, na verdade, sequer carregavam skates, no máximo um patinete, como era o caso do estudante de Filosofia Eduardo Seint. Ele mal chegara e já se encostou em uma parede com seu amigo Gean Patrick e um baseado na mão. Stein não falava muito, apenas ria. Sua maior contribuição foi revelando que “tem um desenho desses ali no CA (Centro Acadêmico) do CFH (Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC)”. Provável zoeira, complementou.

Gean Patrick era mais agitado. Pulava pela pista de skate, tentando simular como que uma possível gangue de três pessoas corria pela cidade com seus stencils e tintas nas mãos. Suas teorias iam de um grupo secreto da Guarda Municipal à alguma igreja dessas mais descoladas— como a Bola de Neve. Stein discordava, mas não quis se estender no porquê. Independente de quem fosse,Gean tinha certeza de que era uma pessoa “muito careta e bolada”. Avisou, por fim, que tem muito grafiteiro e pichador querendo bater no autor.

A caretice do desenho só era levantada pelos que dividiam maior intimidade com o universo da rua. Os cidadãos que vivem em casas próximas aos muros marcados pelo DPO costumam aprovar a mensagem. Este é o caso de Roberto Pacheco, médico aposentado, e sua esposa Margarete Silveira dos Santos, aposentada dos cargos de servidora pública e empresária. Moradores de uma ruela no interior do bairro Córrego Grande, sua casa fica em frente a um terreno baldio com um muro repleto de pixos e grafites, incluindo o DPO.

Os dois têm basicamente a mesma opinião: pixação é feia e ofensiva, grafite é belo e aceitável. A maior crítica de Pacheco é quanto à incomunicabilidade, afinal “é só uns rabiscos que não dá pra entender. Outro dia, várias pessoas se reuniram para desenhar num muro, continuo não entendendo nada do que tá ali”. Margarete, além de concordar com a cabeça, expressou que se sente bem com a mensagem “droga é pra otário”, acreditando se tratar de um grafite bem intencionado.

Suas opiniões foram reforçadas por, basicamente, todos os cinco entrevistados que moravam próximos aos DPOs. Ironicamente, eles tinham em comum a característica de serem idosos aposentados que acham o pixo ofensivo e definem o DPO como grafite — o que é considerado um erro pelos pesquisadores e pelos representantes da cena.

A explicação está na falta de contato com o universo do hip-hop, explica o psicólogo, pesquisador e grafiteiro, Gabriel Bueno de Almeida, conhecido na cena como GBA. Ele explica que se tivermos que enquadrar o desenho em alguma categoria, que seja uma mais ampla. Considera o termo intervenção urbana perfeito para a situação, pois, DPO faz exatamente isso: intervém na visão que as pessoas têm sobre a cidade. Porém, achou importante ressaltar que isso não é necessariamente algo positivo, afinal, a mensagem é conservadora.

Gabriel sempre gostou de pintura em tela e por muito tempo manteve um certo flerte com as gravuras urbanas. A relação evoluiu para um namoro e, após um workshop do grafiteiro Rizo, conhecido por desenhos de camaleões, comprou as latas e deixou suas marcas nos muros de Florianópolis. Aproveitou a situação e transformou a paixão pela arte urbana em objeto de pesquisa de mestrado, o que resultou no documentário Eles Foram por Ali.

Como bom conhecedor da técnica, explicou-nos que o DPO pode ser feito a qualquer momento do dia, pois “ninguém vai perceber. O cara não demora nem cinco minutos pra fazer aquilo”. Além de rápido, é provável que fazê-lo seja barato. O stencil pode ser utilizando chapa de raio-x encontrada no lixo e o desenho não precisa de mais do que usa quatro tintas: branco, preto, amarelo e vermelho, que custam em médio 15 reais cada. No total, os gastos saem entre 60, 80 reais, no máximo. Por questões de segurança, o autor provavelmente anda acompanhado de algum cúmplice igualmente externo à cena do hip-hop.

“O preço é alto para a sociedade e o estado, que precisam limpar as pichações”, acredita Tito Carlos de Oliveira, que leciona química na Escola Getúlio Vargas, no Saco dos Limões. O colégio tem dois DPOs desenhados, quase se sobrepondo, como se o autor quisesse reafirmar suas ideias nos muros escolares. Tito, entretanto, não divide dessa ideia. Para ele, pichadores não ligam para a região em que está intervindo, é muito mais um ato aleatório de infração do que qualquer coisa.

Tito se vê como um homem observador tanto da paisagem urbana quanto de todos os outros aspectos socioeconômicos do Brasil. Proveniente do Rio de Janeiro, está acostumado com paredes riscadas e pintadas por artistas de rua — o que não significa que ele não reflita mais sobre o assunto. A provocação “droga é para otário” é de longe a obra que mais o intrigou até hoje. A mensagem simplesmente mexe com a sua cabeça. Como muitos, divide-se entre a possibilidade de ser pura ironia e a de que é  alguém com “intenções boas, mas atitudes erradas”. Comparou pixar para passar uma mensagem boa com o ato de matar um assassino. Erros justificando erros.

Deixou claro, entretanto, que vê muito potencial artístico em grafiteiros e pichadores. Sua maior crítica é à sociedade e ao estado que viram as costas para esse nicho e os marginaliza. Elogiou a atitude de Fernando Haddad (PT) quando prefeito de São Paulo, ao inaugurar um mural de 15 mil metros quadrados, na Avenida 23 de Maio, no qual mais de 200 artistas tiveram a oportunidade de desenhar. Se dependesse de Tito, a escola contrataria grafiteiros profissionais para fazer workshops e ajudar os alunos a desenhar nas paredes internas de todo o complexo. “Infelizmente, os professores de arte e a diretoria não têm interesse na minha ideia”, completou desanimado.

De todos os entrevistados, os mais indiferentes à existência dessas mensagens eram justamente aqueles que dormem na rua. Na praça Santos Dummont, bairro Trindade, existe um casebre no qual dormem inúmeras pessoas diferentes todas as noites — dificilmente alguém se estadia lá por mais de um mês. Na lateral direita do local, há uma DPO e, segundo um dos homens que se encontrava lá, ninguém faz ideia de quem o fez e, na verdade, nem ligam. Ele tentava descansar, enquanto os outros já dormiam, — o dia estava quente, quase 30 graus, optamos por respeitar o momento e voltar outro dia. Porém, tanto na Santos Dummont quanto no Centro da cidade, as outras pessoas em situação de rua com quem conversamos não refletiam muito sobre o assunto. Para eles, simplesmente não importava.

Ao fim, a rua já não tinha nada de novo para nos dizer e rumamos à suposição mais citada: tudo não passa de uma ação de jovens da Igreja descolada Bola de Neve.

Fé no pixo, fé na vida

Nem Deus poderia nos preparar para entrar em uma das, aproximadamente, 200 unidades que a Bola de Neve Church tem por todo o Brasil, esta é localizada no bairro Itacorubi. Chegamos meio a um dos apogeus do culto. O ambiente era organizado com precisão cinematográfica, tinha o objetivo de criar a melhor experiência religiosa possível. Quase não havia luz, salvo umas cinco lâmpadas cuidadosamente posicionadas, todas as pessoas com suas mãos para o alto, adolescentes e famílias tradicionais brasileiras compunham a grande maioria. Atrás do pastor jovial, uma banda de rock, com integrantes ainda no pique, tocava riffs cuja velocidade aumentava progressivamente, acompanhando a fala intensa do pastor. De forma muito orgânica, som e sermão se fundiram e sem que se percebesse os gritos calorosos de “Glória Senhor!” foram substituídos pelo refrão “Deixa teu fogo queimar até consumir”.

Os ali presentes se debulhavam em lágrimas. Em seguida, abraçaram-se todos, sem exceção. Apoiavam-se uns nos outros, unidos como um único organismo, similar ao conceito biológico de colônia.

Parte da maestral construção de cena é fruto de uma equipe de três técnicos de som, vídeo e luz. Eles utilizavam equipamento de ponta, computadores e aplicativos pagos com alta variedade de opções para edição. Dois deles estavam visivelmente muito envolvidos com a situação, conectados com o momento. Porém, o rapaz que cuidava da mesa de som quase dormia de tão entediado, passando metade do tempo ao telefone.

O culto tomou mais um rumo inesperado quando um homem, um pouco mais velho que o pastor, subiu ao palco para promover o ministério das finanças pessoais. Perguntou às pessoas quantas gostariam de ter a poupança mais gorda, este era seu gancho para o discurso real: finanças têm tudo a ver com as lições da bíblia. O pastor voltou ao palco aproveitando a deixa para lembrar que “o culto prega o desapego aos bens materiais”.

A igreja aplicava diretamente os conhecimentos de finanças a si mesma. Lá dentro era possível encontrar loja de lembranças vendendo livros sobre Moisés, chaveiros, camisetas e até canecas com mensagens cristãs. O prédio contava também com uma pequena praça de alimentação, com uma varanda para a lateral do estabelecimento. Pulando essa área sem parapeito, daria de cara com um grafite de tamanho considerável e mensagens sobre encontrar a chave para a liberdade. Víamos ali o outro investimento da Bola de Neve: conversão de jovens.

Talvez aí se encaixasse o DPO. Afinal, a igreja é conhecida pela abordagem jovial aos seus cultos, envolvendo música, dança, cultura hip hop e surf. O esforço em parecer orgânica e libertária é tamanho que no lugar de uma mesa, o palco do pastor contava com uma prancha de surf. A novidade na saga pela conquista dos juvenis está no ministério In Time, que busca integrar grafite e skate com os princípios cristãos.

O ministério foi criado em 2010, na sede oficial da Bola de Neve, em SP. Aqui, em Florianópolis, só chegou em 2015, pelo skatista e ministro Alexandre Maia, um homem de 44 anos, que frequenta a igreja há cinco anos. Ele conta que o processo de se converter ao cristianismo foi natural e, em grande parte, aconteceu graças a seus amigos pastores com quem andava de skate. Sua intimidade com o universo da rua o tornou a pessoa mais adequada para assumir o InTime.

“Nós pregamos o evangelho através do grafite e do skate”, revela. O ministério costuma realizar eventos de breakdance, batalha de rap e competições de diferentes esportes de rua como forma de unificar os não convertidos e mostrá-los que “na igreja nós podemos nos divertir também. Arte de rua não precisa ser vista como coisa de vagabundo. Esse é o nosso diferencial”. As visões de Maia entram em acordo com a mensagem do DPO, o qual ele enxerga como sincero e de boa intenção. Entretanto, não faz ideia de quem seja o autor. Acredita que pode ser apenas alguém contra as drogas, sem ligação religiosa.

Apesar de construir a imagem liberal, a igreja, que foi fundada em 1999 por surfistas da Igreja Batista, sofre acusações de propagar ideias falsas.  O historiador e pesquisador religioso Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Filho afirma em seu livro, A Grande Onda Vai te Pegar (Fonte Editorial), que os pastores interferem nas vidas dos fiéis de diferentes formas, incluindo as posições sexuais. Em trecho da obra, Maranhão conta que “para namorar um rapaz – e só pode ser um rapaz –, uma moça tem de ter a concordância do líder de célula, pastor ou apóstolo”.

Em entrevista concedida à revista IstoÉ, o historiador revelou que a localização da sede de Florianópolis foi escolhida a dedo, com objetivo de converter justamente os universitários. Esse relato teria vindo dos próprios líderes da igreja. “Querem formar crianças, adolescentes e universitários cristãos”, disse em trecho da entrevista. O livro surgiu de uma dissertação de mestrado defendida na Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC), que se encontra no Itacorubi, mesmo bairro da Bola de Neve Church.

Após quatro horas de espera pela entrevista, saímos da igreja sem muita crença de que eles sejam os autores do DPO, mas, ao mesmo tempo, sem descartar a possibilidade. A maioria dos frequentadores não condiz com o perfil de quem sai às ruas desenhando rostos chapados. Entretanto, dado o esforço demasiado em promover ideias contemporâneas e atrair jovens descolados, a associação Bola de Neve + Droga é Pra Otário é até plausível.

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Movimento dinâmico

Não há dúvidas de que o autor (ou os autores) do feito que tomou os muros da cidade corre por fora do circuito. Isso não significa, no entanto, que o grafite daqui exista como movimento unificado. Há sim figuras importantes como os grafiteiros Rizo, Ldrão, Alma e toda uma velha guarda reconhecida, assim como há locais consagrados como as passarelas abaixo das pontes de acesso à ilha de Santa Catarina. Existem pontos de convergência das manifestações do hip-hop, como a batalha de rap que movimenta o Largo da Alfândega às quintas-feiras.

Nas palavras do pichador e historiador Nichollas Munhoz, o que existe é uma rede de contatos e consensos entre quem integra a arte urbana. “Não existe um manifesto que determine as regras, saca?, mas a rua tem suas próprias leis”, percebe o artista de 27 anos. Munhoz provém da Pompéia, bairro da classe média paulistana, onde teve seu primeiro contato com o universo do grafite. Em Florianópolis, se aprofundou nas técnicas de pintura. Da rua para a academia, em 2014 ele publicou um retrato do grafite em Florianópolis como trabalho de conclusão do curso de História pela UFSC.

O perfil das manifestações que dão ares de metrópole a Florianópolis é peculiar, em paralelo com a arte urbana em São Paulo. Por lá, o grafite importado do Bronx chegara já nos anos 80. Os espaços são invadidos por intervenções seguindo a verticalidade do espaço urbano paulistano: a disputa pelos picos da cidade. O tempo levou a uma divisão, quando o grafite chegou às galerias e a pixação seguiu associada ao vandalismo, que se manteve alvo de repressão do aparato policial do Estado.

Em solo catarinense, o movimento nasceu na virada do milênio, em pontos difusos. Os catarinas valorizam quantidade e não altura, por isso a escalada ainda é rara nos prédios da capital. Esse é um dos fatores pelo qual Mumu é respeitado como uma das pessoas com mais rolês na região.  Após adentrar as pistas de skate e conhecer periódicos da área, o manezinho do bairro Carianos, ao sul da ilha de Santa Catarina, começa suas pinturas em 2001. Hoje com 34 anos, o pixador perdeu a conta de quantas vezes grafou Carianos Skate Crew (CSC) por toda Florianópolis.

Ao mesmo tempo, os jovens Metralhas abriram espaço pelo continente. Já no final dos anos 90, era comum se deparar com a sigla MTR nos muros da área metropolitana. Desse grupo saíram nomes ligados ao veio estético do grafite como Rizo e Ldrão — com exposições internacionais no currículo. Em certa medida, o rebento do movimento local segue o exemplo paulista, no caso da divisão entre grafite e pixação.

Duas décadas da experiência do grafite em Florianópolis moldaram um movimento próprio. Ao que indicam os relatos, pintar aqui é mais aprazível e livre porque o movimento é hospitaleiro. Aos olhos de quem transita, a arte urbana deixou uma Florianópolis mais colorida, mais consciente de seu conflito entre a exploração imobiliária e a preservação ambiental e cultural — e mais crítica de si mesma.

Nem tudo são flores

O pesquisador Gabriel, já citado na reportagem, aponta para outro norte no perfil da cena florianopolitana. Seu percurso foi diferente ao de Munhoz, visto que partiu da universidade para as ruas. A fala sóbria e o olhar de analista parecem investí-lo de ceticismo. “O mundo do grafite é conservador, reproduz muito da cultura do nosso mundo, como a ideia de propriedade”, pontua.

Na sua imersão etnográfica, aprendeu que grafitar no desenho ou muro de outrem é considerado uma afronta. Observa, no entanto, que o revide depende da posição hierárquica do pichador naquele meio. Afinal, os iniciantes podem sim ser atropelados por gente de renome. Munhoz discorda, acredita que não importa se você é novo na arte de rua, seu trabalho será respeitado tanto quanto se você for da velha guarda.

Primeiro mandamento de quem se utiliza do espaço urbano, a invasão do espaço alheio é o que levou crews a declararem guerra ao DPO. Em certa altura da geral do bairro Córrego Grande, parte do grafite que ilustra toda a extensão de um muro 15 metros foi encoberta pela tinta amarela e o dizer contra as drogas. No dialeto urbano, o ‘bafo!’ marcado logo acima da mensagem é forma de denunciar o desrespeito.

Aconteceu também com Mumu. Ele nos contou que, sucessivas vezes, seus bombs foram sobrepostos pela campanha antidrogas. Nas vezes em que aconteceu, a marca CSC voltou a ocupar o lugar. “Na minha opinião, esse cara não tem a essência do movimento. Queria que se apresentasse, andasse junto pra aprender as lições da rua”, fala o pioneiro.

A relação do circuito com o DPO é de amor e ódio. O trabalho é admirado pela massividade e rapidez com que se disseminou. Odiado, porém, por afrontar os preceitos do movimento e se alojar no anonimato. “Seria egocentrismo dizer que ele faz isso para atacar o movimento, mas acaba nos afetando também”, constata Munhoz.

Grande parte dos pichadores procurados gostaria de conhecer o autor das mensagens e entender seus objetivos. Em outros grupos, o flagrante não seria tão pacífico, pois além da afronta, o teor da mensagem incomoda os usuários de drogas que não se identificam como otários. A verdade, caro leitor, é que mesmo que a reportagem descobrisse o autor da provocação, não iria expor — e todos continuariam absorvidos pela curiosidade.

Diálogos

Diz a academia que a arte urbana opera no âmbito da micropolítica. As mensagens da rua chegam fragmentadas, poéticas, codificadas, ilustradas. Há espaço para tudo: incitar a permanência de Dilma Rousseff no governo, reclamar a propriedade pública da Ponta do Coral, ditar visões de mundo, celebrar o orgasmo feminino ou simplesmente deixar seu nome inscrito nas ruas.

O DPO usufrui dessa mesma liberdade, disseminando uma mensagem conservadora, principalmente contra a cannabis. “Sou usuário e me sinto ofendido”, assume Munhoz, para quem a intervenção urbana dá margem para discurso de ódio. O debate da maconha, assim como o aborto, são questões que perpassam a moral antes de chegar às políticas públicas — por isso discussões micropolíticas.

No bairro Pantanal, em frente aos estúdios da Band, a mensagem foi substituída por “televisão é pra otário”. Logo, o muro recebeu novas camadas de tinta branca para apagar a heresia. O grafiteiro de São José responsável pela intervenção mudou sua política em relação ao DPO após certo tempo. “Eu intervi em algumas peças sim. Porém, discutindo com alguns colegas de tinta, concluímos que, mesmo não gostando da mensagem, devemos respeitar o rolê do cara também.”

Ao mesmo passo em que a peça dominou a cidade, virou também suporte para outras mensagens. A palavra “droga” é substituída por Bolsonaro ou Temer. Você descobre que, na verdade, a maconha retarda o câncer. O emoji ganha óculos de sol, tapa-olho ou bigode. Com o passar do tempo, a intervenção ganhou um caráter dialógico. Por essas e outras é que o droga é pra otário entrou para a história do movimento de grafite de Florianópolis como uma instigadora incógnita.

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Por isso também é que essa reportagem precisava ser feita. Se você souber a solução da charada, entre em contato com os autores. Colabore também com o nosso mapa interativo.

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