Parto: Liberdade para escolher

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Compreender os medos e ansiedades que envolvem esse momento tão especial é fundamental para a preparação

 – Oriana Bueno Hoeschl e Carolina Vaisz –

Também publicado em: http://bit.ly/LiberdadeDeParto

O ato de dar a luz representa um dos momentos mais intensos e emocionais na vida das gestantes. São horas de comunhão com o próprio corpo e de um ineditismo impossível de ser descrito. Os sentimentos envolvidos são muitos e mudam de mulher para mulher. Neste momento, os hormônios da gravidez atingem seu mais alto nível e preparam a grávida para se tornar uma verdadeira mãe. Porém, além de todo o carinho envolvido na chegada de um filho, expectativa, ansiedade e até medo também são sensações presentes. O que vem adiante é completamente novo e é comum o nervosismo estar presente.

Seja pela falta sensação de preparo, falta de informação, ou até mesmo por conhecimento de histórias de partos complicados ou de casos de violência obstétrica, muitas mães temem esse momento tão emblemático. Nascer no Brasil é seguro, porém não é simples. Em meio a tantas informações e opiniões conflitantes vindas de familiares, médicos e até da internet, por vezes fazer a escolha do tipo de parto é não é tarefa simples.

Pensando nisso, nesta matéria procuramos compreender os medos que cercam as mulheres na chegada de um filho e trazer informações e relatos de médicos, doulas e outras mulheres que já passaram pela experiência do parto para tranquilizar futuras mães nas suas escolhas.

As aflições do Parto Normal

Uma das maiores consequências da falta de informação sobre o momento do parto é justamente o grande número de mãe que optam por intervenção cirúrgica. O medo de sentir dor e o desconhecimento das implicações de uma cesariana levam muitas mães a optar por esta forma de parto, mesmo quando não necessário. Acontece que a cesariana, por ser um procedimento complexo, que envolve anestesia e necessita de semanas de recuperação, nem sempre é recomendável. Mesmo assim, atualmente o Brasil é o recordista mundial deste tipo de parto, que já supera em número os partos normais realizados em todo o país.

A preocupação de membros da comunidade médica com os números resultou, recentemente, em uma decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) que determina limitações aos partos cesarianos realizados a pedido das pacientes. Agora, nas situações em que não há risco, a intervenção cirúrgica só pode ser realizada a partir da 39ª semana de gestação, quando há maior chance da mãe já ter entrado em trabalho de parto. A decisão pode parecer ferir o direito da mãe de escolher, mas de acordo com órgão, que é  responsável por regular práticas médicas no país, a medida tem como objetivo garantir a segurança do bebê, e evitar problemas causados pelo seu desenvolvimento incompleto.

A normativa procede outras tentativas da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão responsável por fiscalizar e regulamentar dos planos de saúde, de diminuir o número de partos cesarianos, que são ainda mais altos no sistema privado. Quando levados em conta apenas os partos realizados por planos de saúde, as intervenções cirúrgicas representam 84% de todos os partos realizados, enquanto a porcentagem considerada segura pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 15%. Nestes casos, a intervenção da equipe médica e a realização do procedimento são fundamentais para evitar riscos a vida e saúde da mãe e do bebê.

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Assim como muitas futuras mães, o sonho de Ivete Schwantes, 53, era ganhar seus filhos em um parto natural e humanizado. A expectativa e a ansiedade para poder vivenciar o momento único de ver a vida acontecendo na sua forma mais pura possível fez com que ela planejasse as suas duas gravidezes da melhor forma, mas a em ambas precisou ser submetida à cesárea por questões clínicas e não pode realizar o grande desejo. Apesar disso, entende e agradece à equipe médica pela eficiência na decisão de fazer a intervenção.

Na primeira gravidez, do filho Lucas, com oito meses houve o rompimento da bolsa sem dilatação e contrações para que seguisse com seus planos e então foi feita a cesárea emergencial. Na gravidez da segunda filha, tudo ocorreu bem até a última consulta médica. Após aquele dia seria apenas aguardar o momento certo para a chegada de Nathalie, porém o médico percebeu batimentos muito mais lentos e o cordão umbilical enrolado no pescoço da criança. De lá, ela foi direto para o hospital em cirurgia de emergência. “Nas duas vezes foi o mesmo médico. Ele teve muita sabedoria para realizar a cesárea”, relatou Ivete, que entendeu a necessidade da mudança de sua escolha.

Para a médica Melania Amorim, obstetra e defensora do parto normal, os médicos brasileiros precisam tratar o nascimento de forma mais natural, onde quem faz o parto é a mãe. Mas ela, que dedicou sua carreira ao estudo de gravidezes de risco, acredita cesárea não deve ser condenada, já que é, como no caso de Ivete, um instrumento necessário para salvar vidas. Ela deve, porém, ser usada com cautela. “Publicações médicas e pesquisas mostram que não há vantagem ou redução de riscos quando a taxa de cesárea ultrapassa os 15% recomendados”. Melania defende uma forma de parto onde há a valorização do trabalho da parturiente e a não realização de intervenções, a não ser quando necessário para preservar a saúde do bebê e da mães.

O Medo da violência

Outro fator que preocupa mães no momento da chegada de seus filhos é o modo como serão tratadas pelos médicos plantonistas, que não necessariamente serão os que as atenderam durante a gestação. Cada vez mais têm se dado luz às histórias de maus tratos para com parturientes e de casos em que essa violência deixa marcas permanentes na memória e corpo das mulheres. Apesar do sentimento de intensa felicidade que muitas mães têm na chegada de seus filhos, as palavras que usam para descrever o partos nem sempre são positivas. A violência obstétrica, como é chamada, engloba uma gama de tratamentos que vem desde omitir informações até realizar intervenções médicas dolorosas e desnecessárias sem o consentimento da mulher.

Não raramente, gestantes são submetidas a pressões psicológicas e atitudes invasivas, através de procedimentos médicos que tiram a sua liberdade de escolha e agridem física ou moralmente. No momento em que deveriam passar por um atendimento humano e digno,  sentem-se em meio a um procedimento padronizado e frio.

Esse medo também repercute no aumento da taxa de cesáreas, uma vez que tais mães optam por agendar a cirurgia e evitar as incertezas de um atendimento de emergência. Porém, para a Melania Amorim, isso não significa que estas mães estão tendo liberdade de escolher como o momento ocorrerá. “Mulheres não desejam cesarianas, mulheres desejam assistência qualificada ao parto”, diz a médica.  “Não podemos desejar que uma mulher queira parir, se a assistência que oferecemos é desatualizada, baseada em rituais que repetimos sem reflexão e sem embasamento científico.”

Índices de violência obstétrica

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Para combater a violência que assusta e machuca as futuras mães, a  ex-deputada estadual Angela Albino (PCdoB) propôs a produção da Cartilha dos Direitos da Gestante e da Parturiente, um material de apoio e divulgação sobre as medidas de proteção à gestante. Aprovado nesta terça-feira (13) na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), o projeto de lei 0482.9/2013 irá levar informações sobre os direitos das parturientes e seus filhos através de diversos formatos aos hospitais e centros de atendimento à gestantes do Estado.

A trajetória de luta de Tayonara

“Desde o início eu queria ter parto normal” , conta Tayonara, jovem de 22 anos que deu à luz sua primeira filha no início de 2016. A sua decisão, porém, não foi respeitada pelos médicos que a acompanharam durante a gravidez. Já nos primeiros meses, a primeira médica escolhida para acompanhar sua gestação não foi favorável à escolha, assim como o médico que realizou seu parto. “Minha primeira médica disse que era eu quem decidia, mas que cairia em um plantão que talvez não fosse o dela. Já o último médico queria apenas o dinheiro dele, falava para eu fazer a cesariana”, relata Tayonara, que acredita ter sido indevidamente influenciada em sua escolha.

Ao se deparar com as dores do parto, pouca dilatação e pressão do médico, acabou cedendo e realizando a cesária. “Me arrependo de não ter tentado parto normal, pois não precisaria passar pelas difíceis semanas do pós-operatório”. A recuperação, mais lenta no caso de intervenção cirúrgica, interferiu nos cuidados com sua filha, Laura. Os pontos demoraram um mês para cicatrizar, o que limitou seus movimentos e atrapalhou na hora de amamentar e dar banho. Além disso, Tayonara ainda sofreu com Cefaléia pós Raqui, uma complicação da anestesia raquidiana que causa uma forte dor de cabeça durante o pós parto.

“Foi uma experiência diferente de tudo que eu já senti. Uma mistura de medo, ansiedade, emoção”, conta a jovem mãe. Para ela, nada consegue apagar a beleza daquele momento único, “Na hora de conhecer aquele pequeno ser que cresceu dentro de você por tanto tempo… é mágico”. Tayonara percebe que muitas das dificuldades que teve, durante a gravidez e o parto, foram por falta de informação. “Tive dúvidas, medos. Fui muito mal assistenciada pelos médicos”.

 

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O Parto Humanizado

O grande número de pedidos de cesáreas reflete um cenário médico de falta de instrução e negligência com as gestantes. Por não serem devidamente preparadas para a chegada do parto, muitas mães não sabem dos reais riscos das cesarianas e acabam optando por esta forma de parto em função do medo das dores.

Para a doula Ana Carolina Schlottmann, “A cesariana tem hora marcada e funciona de uma forma que é muito mais conveniente e vantajoso para todo o sistema. Eles sabem o quanto vai durar, quando vai acabar, o médico pode se programar para realizar outro parto logo em seguida, a maternidade consegue se programar. Já o parto normal, por outro lado, obedece às leis da natureza, por isso não tem hora para começar nem para acabar”. Assim os médicos, para quem o parto normal é menos vantajoso (possui maior duração e menor remuneração) acabam frequentemente pressionando pela escolha da intervenção cirúrgica.

Para combater as ações que sistematizam a concepção, há uma tendência global de valorizar a humanização, que, segundo Amorim, consiste na “na visão do parto como um evento biopsicossocial e espiritual, e não médico”.  Neste formato, a vinculação entre a medicina e a psicologia auxilia a centrar a mulher como protagonista. Partos humanizados não são uma forma de parir, são processos de valorização, respeito e cuidado.

Um crescente instrumento dessa humanização é a presença de doulas acompanhando o parto. “Normalmente a doula é uma mulher que passou pela experiência do nascimento e se encantou. Ou, passou por um parto traumático e quiseram defender as outras mulheres vítimas de violência obstétrica, que é muito comum”, conta Ana. Suas funções vão desde acompanhar as consultas pré-natais, ajudar na preparação do plano de parto, assistir o parto, auxiliar na amamentação e até ajudar a reorganizar a rotina familiar pós parto. Sobretudo o mais importante é durante o trabalho de parto, onde a doula atua prestando um apoio físico e emocional. “Durante o parto é liberada a oxitocina, hormônio do amor e que é responsável pelo fortalecimento do vínculo entre mãe e filho. Se tratarmos esse amor de forma mais humanizada, se mudarmos os partos, podemos mudar o mundo. Precisamos receber as pessoas no mundo com carinho e conforto.”

O termo doula carrega o significado “mulher que serve”. Na prática, ela é uma acompanhante especialista que orienta, sugere posições e aplica conhecimentos obstétricos que trazem a humanização para o parto, buscando a melhor experiência e contato entre mãe e bebê. A doula trabalha também o empoderamento da mulher, reafirmando a liberdade de escolha e minimizando as consequências de um sistema obstétrico violento.

Apesar do motivo que leva muitas mulheres a buscarem o acompanhamento de uma doula ser esse apoio emocional, diversas pesquisas indicam que seus benefícios vão muito além. Melania afirma “Se doula fosse um medicamento, seria antiético não prescrever.” Em uma pesquisa realizada em Joanesburgo, na África do Sul, foi constatado que, de todos os tipos de pessoas que possam prover apoio à parturiente durante o trabalho de parto, o apoio dado pelas doulas é o mais útil. “Não se trata, portanto, de um retrocesso ou de negar os avanços da Ciência, mas sim de incorporá-los”.

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A experiência humanizada de Maria Julia

“Todas me viram naquele estado. Para menor compreensão, aquilo era sofrimento. Pra que passar por isso? Mas ninguém precisou de explicação. Muito longe de ser sofrimento, eu tava no auge do amor, da emoção, sentindo a vida percorrendo meu corpo e abrindo espaço pra trazer ainda mais”. É assim que Maria Julia Poggio, 28, descreve as dores do seu parto natural, humanizado e com a presença de uma doula. Ela escolheu ter sua filha através de parto normal desde o início da gravidez, já que vê a cesariana como meio bruto, se não feito apenas em caso de extrema necessidade, e considera o histórico de violência obstétrica assustador. Ao longo da gestação, ela e o marido Hívan Tontic, 35, buscaram compreender cada detalhe desse momento tão especial, e para garantir que tudo saísse conforme a vontade deles para a chegada espontânea da primeira filha, contaram com o trabalho e apoio da Virgínia Vianna, doula que acompanhou o parto.

A bolsa da Maria Julia estourou durante a madrugada e em seguida foram para a maternidade. A avaliação médica marcou apenas dois centímetros de dilatação, mas mesmo podendo retornar para casa, a recomendação foi  ela ficasse para não ter risco de infecção.

“Oito da manhã e a doula chegou. De vez em quando entrava uma enfermeira para medir sinais vitais. Mania de controle dessa sociedade. Porque estava tudo muito vivo, era só pra registrar. Eu sentia cada movimento de Olívia na minha barriga nos intervalos entre uma contração e outra. Uma loucura.”

Mesmo com o aumento das dores, ela optou por não usar anestesia e diminuir a intensidade da dor, nem soro para acelerar o processo. Mesmo assim, quando o médico constatou que ela ainda estava com cinco centímetros de dilatação, a metade do necessário, ela pensou que não daria conta. “E então minha sogra entrou numa emoção absurda, um encanto no olhar “Vocês estão lindos! Vocês são lindos”. Jato de ocitocina. Impossível eu não dar conta. Logo a doula solicitou a preparação da sala de parto, pois a hora da Olívia nascer havia chegado. ”

“Hívan e Virgínia junto comigo. Ele era parte do meu corpo o tempo todo. A dor era visível nele. Eu estava igual bicho: sem roupa, sem pensar. Coloquei a mão e senti a cabeça dela. Nessa hora fui tomada por algo que só tenho a imagem, não consigo descrever. Ela veio.”

Mesmo estando em uma maternidade humanizada, assim que Olívia nasceu, o médico plantonista já queria levar a criança para longe, mas a doula interferiu nesse momento, entregando nas mãos da mamãe de primeira viagem seu pequeno pacotinho de amor, que teve ali a segurança garantida. “Em meio a uma explosão de emoções indescritíveis, minha filha chegou do jeitinho que planejei: sem a interferência de ninguém e com muito amor. O contato entre mãe e bebê, pele a pele, é a consagração desse momento de vida pulsante, e não queria perder esse momento único por nada”.

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