Edu Vieira, a rua parada por promessas

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 – Tadeu Mattos de Souza – 

Quando as aulas acabam e o horário de pico dos automóveis chega, fica fácil observar como a Rua Deputado Edu Vieira se mantém estagnada. Pessoas irritadas alagam a rua de xingamentos e buzinadas inúteis na esperança de que algo vá mudar. Finjo estar calmo enquanto demoro horas para chegar em casa no ônibus. Não existe 3G que aguente esse período de tempo insuportável. Todos falam na duplicação da rua, mas após meses de obras e perguntas sem respostas, fico cada vez mais cético, não sou o único.

Para quem não sabe, a duplicação da Edu Vieira faz parte do Anel Viário, projeto de urbanização e mobilidade para a cidade. A obra começou no fim de maio, com o orçamento de R$ 36 milhões de reais e previsão para acabar em 2019. Para construir a nova rua, serão realizadas desapropriações por toda sua extensão.

Não é a primeira vez que a Edu Vieira vira pauta. Faz alguns meses que passei pelo lugar, apenas observando e anotando tudo. Já havia ligado para o engenheiro da Secretaria Municipal de Obras, Américo Pescador. Ele alegou que os moradores seriam informados até o mês de agosto. Bem, a última vez que olhei o calendário estávamos em novembro. Então, era necessário cutucar a situação novamente.

Ver como as pessoas serão afetadas pela desapropriação foi sempre a intenção dessa apuração. Afinal, só querem ver o projetinho da obra pronto, mas poucos pensam nas pessoas que vão perder partes de suas vidas. Essa é a viagem pela Edu Vieira e as histórias que aprendi pelo caminho.

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PARADO NA RUA

Na minha caminhada, já pelo final do dia, encontro  uma grande placa azul, Mecânica do Toninho, lugar simples. A cor amarela dos postes de luz me atraíram. Mais uma fonte, né. Confesso que também não queria ficar pela rua após o pôr do sol.

Dentro da loja estavam quatro senhores conversando sobre o Figueirense e suas famílias, nessa ordem. Aproximei-me instintivamente para quem parecia dono do estabelecimento. Como eu sabia? Chamaram-no de Toninho. Ele riu do assunto de uma forma inesperada. “Isso aí é só estória, rapaz. Já prometem por décadas e nunca sai.” Verdade, afinal a obra já deveria estar fora do papel faz 30 anos. A prefeitura achou uma forma conveniente de colocar a culpa na Universidade e na Eletrosul. A sua feição caiu logo depois da risada. “Não sei de nada, passaram aqui na loja e falaram em 17 metros, mas não tenho certeza”.

Sobre seus planos depois da duplicação? Olha… Só pelo jeito que observava, já tinha a resposta antes que abrisse a boca. Não existem planos. Eles não foram informados de quando e nem como vai acontecer. A loja de Toninho tem uma quantidade enorme de peças automobilísticas, que não faz ideia de onde colocar. Ele, como muitos na rua, está preso pela falta de informação. “Quero estar vivo para olhar a fila de carros e poder reclamar”, confessou antes que eu saísse da loja.

Após passar pela mecânica, continuei minha aventura na rua impregnada pelos faróis de carros. Entrei em um mercadinho que parecia estar prestes a desmoronar. Simpático lugar. Fui falar com a senhora no caixa. Claro, esperando ela acabar seu trabalho e de conversar com o jovem comprando um cigarro. Gisele Bueno, o nome dela. Parecia interessada  no assunto. “ Filho, isso não vai sair do lugar. Não é meu ceticismo de comerciante… É o que vai acontecer. Com esse novo prefeito as coisas não vão progredir, por enquanto”, reclamou em  tom depressivo. Ela explicou como funciona a história da rua. É como uma colmeia: começa com uma pequena casa e, conforme o tempo passa, outras construções vão se agregando. Em uma mora o pai, em outra, o filho, o tio, a sogra. Com o tempo, esse vínculo será cortado; a rua será duplicada; famílias serão separadas.

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Gisele também comentou sobre indenização. “Nunca se fez projeto antes. Um cliente meu esteve na prefeitura e falaram que não vão passar dos R$ 450 mil no terreno dele”. Está rolando dinheiro nisso”. Esse cliente que foi mencionado não concorda com o estipulado. Provavelmente  tenta conseguir mais pelo terreno. Engraçado era como ela falava isso na maior serenidade, enquanto empacotava biscoitos.

A última coisa que a comerciante disse foi sobre investimentos. Na verdade, o assunto surgiu quando ela apontou para um buraco na parede da loja. “Tá vendo? Vai continuar ali. O proprietário não quer investir com medo do que vai acontecer” Funcionários da prefeitura já passaram pela loja com trenas para delimitar por onde a rua vai passar, apenas isso.

Já havia conversado com  o dono do  Clube Recreativo Corintians, Romeu Franzoni Junior, faz algum tempo. Apesar de não ter sido notificado sobre a desapropriação, resolveu ir na prefeitura. Seu estabelecimento será destruído, mas receberá entre R$ 1,4 milhão  e R$1,6 milhão. Uma quantia que me faz pensar em algo que o Engenheiro da Secretaria de Obras informou sobre o orçamento: seriam R$50 milhões para indenizações, sujeito a mudanças. A parte boa é que foi bem específico no “sujeito a mudanças”. Até porque são 75 áreas privadas desapropriadas e outras três públicas.

Chegamos ao fim da viagem. Isso já  em outro dia. Era necessário passar pela última vez no Centro Comunitário do Pantanal. Crianças estavam em aula no local, então era inútil tentar falar com a professora. Entretanto, o interesse surgiu pelo posto de saúde, que fica literalmente ao lado, no mesmo prédio. Mal se entra  e já é possível notar o tumulto. Crianças chorando, pais irritados, e um menino insistindo em pegar o celular da mãe. Fui de encontro com a enfermeira que aproveitava sua folga para respirar. Mal houve tempo para conversar, mas informação não faltou. A situação é tensa, não existe espaço suficiente para os pacientes; o equipamento está sem manutenção; o esgoto está saindo pela lateral da casa. Era para ser construído um novo prédio para o posto de saúde do Pantanal que seria acabado no mês de Janeiro do ano passado. A assessoria de imprensa da prefeitura lançou uma nota que explica a situação. Aparentemente, houve várias complicações com a empreiteira contratada. Até agora, os moradores que precisam do posto vão ter que se contentar com o antigo improvisado.

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TECNICALIDADES DA DUPLICAÇÃO

O trecho total da duplicação é de 2,2Km, partindo do restaurante Dona Benta até o Armazém Vieira. O projeto apresentado pela prefeitura mostra que a duplicação terá 30 metros de largura, dividida em oito faixas: contendo uma para ciclovia, duas de corredor exclusivo para ônibus e duas de passeio.

A UFSC entrou em um acordo para a duplicação da Edu Vieira. O chefe de gabinete da reitoria da UFSC, Áureo Moraes, informou que foram cedidos 30 mil metros quadrados do campus para a duplicação. Isso vai desde o Centro de Desportos da Universidade (CDS) até a Dona Benta. O maior prejuízo será no estacionamento do Centro de Tecnologia e em dois prédios do CDS, que serão demolidos. Pelo contrato feito com a prefeitura, esses dois prédios serão construídos novamente em outros locais com a mesma dimensão. Vão mesmo fazer isso? Não me pergunte, o contrato diz que sim.

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